10/05/10 - 09:38Denunciar

Kiko Loureiro

Criação Espontânea

De volta ao Brasil. Antes do final do ano, passei com o Angra por algumas interessantes cidades chilenas, como Santiago e Valparaíso, e depois seguimos para Buenos Aires. Quatro dias, quatro shows. Muitas horas tediosas em vans, aeroporto e hotéis, mas não troco isso por nada. Quando o sono e o cansaço não te aprisionam, é possível usar esse período ocioso para o estudo. É pouco tempo que sobra e acredito que, para muitos guitarristas que estudam ou trabalham com outras coisas, o tempo para dedicar-se integralmente ao instrumento é ínfimo. Todavia, penso que constância é o fator mais importante no estudo. Do que vale estudar muitas horas por poucos dias da semana? É mais importante estudar constantemente, diariamente, quantas horas forem possíveis, e deixar o cérebro adaptar-se. Informações novas devem ser assimiladas em doses pequenas e constantes. Por isso, tento estar sempre conectado a algum tipo de aprendizado e estudo, mesmo nessas confusas viagens. Seguindo a sequência de pensamento do blog anterior, no qual retratei o estudo de jazz, falarei um pouco agora sobre improviso, a chamada criação espontânea. Para mim, o estudo do improviso é uma terapia, a busca de um tipo de liberdade musical. A verdadeira composição instantânea. Ficam as perguntas: O que é isso? Como encontrá-la? Como desenvolvê-la e estudá-la? Sei que o assunto representa um lugar nebuloso na cabeça de muitos guitarristas – inclusive na minha –, mas é justamente por isso que sua discussão é sempre importante.Meu álbum No Gravity tem como título essa sensação. O objetivo sublime de chegar ao nirvana musical, em que a realização de uma ideia no momento certo traz a sensação de graça alcançada. É um ponto que sempre almejo e um dos focos dos meus estudos. Dentro de tantos assuntos relacionados à criação, uma das mais importantes barreiras a vencer é o medo do erro. E, de maneira mais abrangente, o real medo da música, ou seja, a timidez e inibição para arriscar, provar, tentar, experimentar...Difícil é a tarefa de encarar a música como um jogo em que você não tem nada a perder ou ganhar. Basta, simplesmente, tocar o que você está apto no momento, sem intenções de agradar a ninguém, a não ser a si mesmo. Certa vez, Miles Davis disse algo mais ou menos assim: não tenha medo dos erros, pois eles não existem. Tudo é a forma como encaramos nossas tentativas desajeitadas. Se não as assimilarmos, uma sequência maior de erros virá e, com isso, a inevitável insegurança. O erro é basicamente uma tentativa malsucedida que trará resultados extremamente favoráveis com o passar dos anos, pois é apenas com ele que a experiência virá. O erro é a forma mais crua de aprendizado. É o necessário. É o outro lado da dialética. Desde a escola, somos repreendidos pelos erros que cometemos, mas, sem eles, o aprendizado não acontece, indubitavelmente. O julgamento sempre vem da experiência, mas a experiência vem dos erros e acertos. Não há como saltar etapas. Os erros que ocorrem por fatalidade podem ser a abertura a novos caminhos. Tudo é uma questão de como encará-los e utilizar sua força negativa como positiva.Procure ouvir o disco A Love Supreme, de Jonh Coltrane, os álbuns-solo de Keith Jarrett e Virtuoso, de Joe Pass. Estes trabalhos são os mais puros exemplos do significado da improvisação.Abre-se 2010 e, como de praxe na agenda anual, arrumo as malas para o mais badalado evento do mercado de instrumentos: a NAMM. Na próxima edição, contarei os bastidores dessa feira de negócios, shows e apresentações que acontece na Califórnia.

kikoloureiro.guitarplayer.com.br

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