AQUA

Desde que surgiu em 1991, o Angra provavelmente passou pela maior provação de sua carreira, amargando por quatro longos anos longe dos estúdios em função dos sempre desagradáveis entraves financeiros e judiciais que todos já devem estar cansados de saber. Mas, após a tormenta, temos "Aqua", o sétimo e tão aguardado álbum de uma das poucas bandas que conseguiu expressiva repercussão para além das fronteiras desse nosso talentoso Brasil.

Novamente temático, a inspiração recai sobre a derradeira obra de Shakespeare, "A Tempestade", escrita em 1613 e cujo drama envolve amor, conspirações oportunistas e, naturalmente, a vingança, ambientados numa ilha habitada pelo mago Próspero e sua filha, Miranda. Musicalmente, o novo disco marca o retorno de todas as características que fizeram com que o Angra se sobressaísse no cenário mundial, mesclando à distorção do Power Metal Melódico os muitos arranjos típicos da música clássica, não temendo pisar em território mais acessível e, o melhor, espalhando muito da diversidade da música étnica brasileira pelo repertório.

Com muitos detalhes aparecendo de forma discreta, a forma como exploram, amarram e entrelaçam tantos elementos, por vezes tão díspares, sem exageros e de forma homogênea, oferece um caráter todo progressivo a várias canções. Mas, curiosamente, mesmo com esses atributos, optou-se por iniciar a audição com “Arising Thunder”, que, mesmo repleta de guitarras neoclássicas, se revela uma canção apenas convencional em sua proposta.

De qualquer forma, “Aqua” preza pela diversidade e oferece muito, mas muito mais do que isso. É com a beleza das percussões de “Awake From Darkness” ou “The Rage Of The Waters” que a energia primitiva do Heavy Metal se transforma em objeto de exportação para causar impacto em qualquer gringo. Desde as baladas – “Spirit Of The Air” se destaca por ser quase angelical – até as mudanças de andamento de “Hollow” oscilando harmoniosamente entre o muito pesado e o ameno; e culminando na etérea “Ashes” que encerra a audição de forma um tanto quanto obscura, o ANGRA injeta o necessário apelo emocional, estimulando e segurando as atenções do ouvinte com uma sempre bem vinda imprevisibilidade.

Novamente contando com o baterista Ricardo Confessori, “Aqua” certamente não muda os rumos do Heavy Metal, mas possui uma estética tão versátil e exótica que mantém o ANGRA entre os mais expressivos nomes do Power Metal Melódico mundial. E, como não poderia deixar de ser, fatalmente agradará ao público que vem acompanhando o conjunto paulista em sua fase pós-André Matos. Nada soa forçado, apenas flui... como água.


Por Ben Ami Scopinho

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