Kiko Loureiro

E DEPOIS DA GRAVAÇÃO?

Trabalho árduo, longo, extasiante e, quando pronto em mãos, dá-nos a sensação de alívio, de tarefa cumprida. Criar, compor, ensaiar, discutir, analisar, decidir, estruturar, gravar, mixar, masterizar. É o que fazemos de nossas ideias musicais. Agora finalizadas, transformadas em Aqua, o novo álbum do Angra. Foram longos meses para não deixar escorrer entre os dedos nossas criações e lapidá-las para apresentar a todos. Quando pensamos que o trabalho esta concluído, é aí que aparece o lado mais difícil. O que fazer com esses 50 minutos de música? Claro, criar a capa e tirar fotos para um encarte bonito e de boa apresentação, que represente algo tão etéreo como a música. E depois? Com as faixas prontas e o encarte definido, inicia-se outra etapa. Uma fase intermediária que não é estúdio nem show. Como levar o trabalho gravado ao maior número de pessoas, para que se interessem em ouvir as novas músicas ao vivo?

No caso do Angra, lidamos com países de culturas diferentes, nos quais cada gravadora tem seu jeito próprio de criar a expectativa do lançamento – coordenar quando e como a capa e a primeira música serão divulgadas, qual a melhor data de lançamento do CD completo. E qual será o single? O japonês quer a música mais rápida. O alemão gosta da mais pesada. Já o brasileiro quer tudo, a rápida, a pesada e a balada de melodia cativante.

E temos ainda de driblar o efeito MP3 para que nada vaze antes da hora e destrua a expectativa, afinal, como disse o escritor Antoine de Saint-Exupéry, tudo fica melhor quando aguardamos algo por um determinado tempo, pois a espera também é prazerosa e amplifica a emoção.

Incansáveis reuniões para definir caminhos de marketing e criar vontade nas pessoas de escutar o álbum. Como distribuir o álbum no Brasil, já que no exterior estamos bem assessorados com grandes gravadoras e aqui o território é enorme e eclético? Precisamos agendar pocket shows em megalojas, ações em rádios, viagens para divulgação, chats e bate-papos na internet, entrevistas coletivas e individuais. Dar prioridade para internet ou revistas de banca? Fotos exclusivas para algum veículo de mídia? Onde anunciar? Renegociação dos contratos do álbum, adiantamento dos royalties das gravadoras... Outro assunto importante: quem edita e recolhe os direitos autorais das músicas? Cada território no mundo tem sua própria e peculiar sociedade de autores e compositores. E, antes disso, há a elaboração do ISRC, o DNA do álbum onde todas as informações oficiais da produção estão digitalmente registradas.

E a música propriamente dita, onde se encaixa nessa epopeia burocrática? Os ensaios devem ser multiplicados, para que as novas composições se agreguem às principais da carreira. Eu e Rafael Bittencourt devemos reaprender as músicas que acabamos de gravar, pois, como cada um registra uma faixa, temos de ensinar um ao outro como cada trecho foi exatamente tocado, para que a execução ao vivo fique fiel ao disco. Assim, precisamos realizar vários ensaios em dupla para treinar as partes antes de nos juntarmos à banda. São necessárias algumas adaptações e rearranjos para viabilizar as inúmeras guitarras gravadas reduzidas a duas no palco.

E, por falar em palco, temos também de remodelar o visual, decidir a arte de fundo e cenário. Além da arte em si, o peso, portabilidade, segurança e resistência são fatores importantes para um belo “backdrop”. Ainda existem as questões da iluminação, equipe técnica e equipamentos renovados para a turnê.

E, claro, não podemos nos esquecer da TV. Conversas e mais conversas para decidir como e quando será produzido um videoclipe e como criar pautas para que possamos estar em programas televisivos. Nesse período de entressafra estúdio/shows, muitas coisas são preparadas e definidas. Cada vez mais fica provado que, em se tratando de expressão artística, carreira e desenvolvimento sólido da campanha de um novo álbum, a música é parte do todo, e não o todo absoluto.


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Photo by Felipe Andreoli

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