Kiko Loureiro e Luiz Inácio Lula da Silva

GUITARRA PRESIDENCIAL

Em junho, recebi um convite mais que inusitado. Por telefone, perguntaram-me sobre minha vontade e disponibilidade de tocar para o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva. Mesmo sem saber exatamente o que era e quais as circunstâncias de tal apresentação, aceitei na hora, sem hesitar. Claro que com total consciência de que nosso “companheiro” não deve ser lá muito fã de arpejos com sweeps, blue note, padrões com palhetada alternada e outros itens característicos de nosso cardápio guitarrístico. Em comemoração aos 30 anos do modelo Gol, a Volkswagen do Brasil desenvolveu a série Vintage. Esta linha, além da cor branca e faixa preta, ao melhor estilo dos carros dos anos 1970, vem com um amplificador acoplado no porta-malas e um suporte para guitarra. Para completar a ideia, a Tagima foi convidada para desenvolver uma guitarra nas mesmas cores, com visual vintage e logomarca da Volkswagen. No dia 01 de junho, Lula faria uma visita à fábrica em São Bernardo do Campo (SP), ao lado de ministros, senadores, prefeitos, presidente da Volks, diretores, sindicalistas, comitiva estrangeira e diversos ilustres – todos com seus belos ternos, assessores com pranchetas na mão e gigantescos seguranças com seus pequenos fones em uma das orelhas. Além do discurso para os metalúrgicos, a agenda do dia previa a recepção na fábrica e, então, a apresentação do Gol Vintage. Carro impecável, guitarra impecável. Faltava o piloto e, por isso, fui convidado. No dia anterior à apresentação, cheguei à Volks sem saber o que deveria tocar. Pensei no hino nacional à la Jimi Hendrix – ideia enfaticamente vetada pela comitiva presidencial. Depois, imaginei que um chorinho ou alguma música minha com uma levada bem brasileira funcionaria. Ao chegar ao local, descubro que, por um consenso entre a equipe e a comitiva presidencial, foi definida a canção Amigos para Sempre, por ser do gosto pessoal do presidente. Em minha opinião, a música não tinha nada a ver. Não é brasileira, tem uma melodia pegajosa, é lenta e enfadonha para a imagem de um carro com apelo esportivo e uma guitarra instalada. Tocaria o que fosse preciso, mas a meta era tentar mudar esse quadro. Coloquei o playback da minha música Feijão de Corda (um baião de melodia bem simples) no som do carro e executei o tema principal. Convencer a galera do setor de desenvolvimento não foi difícil, afinal, eles criaram o conceito do carro e já sabiam que a melodia sonolenta de Amigos para Sempre não refletia o visual do carro. O próximo passo seria convencer o diretor de marketing da empresa, que já tinha sua cabeça feita em relação à música imortalizada por José Carreras. Ele ouviu as duas opções e saiu convencido de que o baião teria mais a ver com Lula e suas raízes. Horas depois, após inúmeras repetições e ensaios de como e quem dispararia o CD, quem abriria a porta do carro e todo o estudo necessário da movimentação ao lado do excelentíssimo presidente Lula durante o evento que aconteceria no dia seguinte, eis que chega o presidente alemão da Volks para colocar ordem na organização brasileira. Sem delongas, pediu para ouvir a música, afinal, a demonstração do carro seria algo muito importante na solene recepção. Um amontoado de ilustres engravatados, diretores e outras pessoas importantes em volta para saber o veredicto final da canção. Desconhecendo o ritmo nordestino, ele pergunta se Lula conheceria aquela música. Fui obrigado a responder que não e ver que a enfadonha melodia de Amigos para Sempre ganharia a batalha. Mas o que fazer se acreditávamos que a tal música não tinha nada a ver? Bem, se queriam melodia conhecida, ritmo nordestino e agradar Lula, não me restou outra alternativa a não ser sugerir Asa Branca. Tiro certo. Todos ali presentes concordaram, mas a comitiva e o presidente da Volks já não estavam mais lá para assinar embaixo. Decidimos por nós mesmos e encaramos o dia da apresentação, mesmo com as folhinhas com a programação dizendo que um tal Kiko Loureiro, guitarrista, tocaria a música Amigos para Sempre. Na manhã seguinte, em meio à organização impecável, toquei a composição de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. O sorriso do nosso presidente selou a discussão.

http://kikoloureiro.guitarplayer.com.br/

Comentários (1)

floragilraenwitch
1. floragilraenwitch 30/11/10 19:46

oi, adoro Angra, te add, me visite quando puder, bjos

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