Blog do Kiko

OBRIGAÇÕES DE MERCADO

Agora é tempo de corresponder às “obrigações de mercado”. Pensativo, tentei absorver essa frase que li em uma dessas revistas de assuntos corporativos e negócios, durante um raro momento de ócio em uma sala de embarque de algum enfadonho aeroporto. Fiquei assustado com o significado intrínseco que isso deve causar nas pessoas, pois a frase estava dirigida a seres humanos e não a corporações. Bom para psicólogos, psiquiatras e a indústria farmacêutica.

Qual seria essa “obrigação de mercado”?

Imagino que, entre elas, ser emocionalmente inteligente está acima de tudo, em voga. Ser inteligente à moda antiga já não é suficiente. Lembro-me de ouvir de um guru corporativo palestrante que ser “bom ou ótimo em algo não levará a nada”, temos, sim, que ter “excelência” no que fazemos, senão, profetizava o tal, ficarás na “corrida de ratos”. O mercado farmacêutico agradece. Mas, então, qual é o parâmetro para ser excelente? O mundo que nos colocam à frente, nas mídias e artes em geral, é polido, perfeito, “photoshopado”, “autotunado”, comprimido, asséptico, maquiado, 3D, HD, nas medidas dos paquímetros digitais, controlado pelos profissionais do marketing, consultores de moda, de mídia, assessores, colegiado de magistrados e por aí vai... Em nossa profissão de guitarristas, colidimos com o mesmo transtorno de nossos tempos. Temos de ser tudo ao mesmo tempo agora e, por obrigação, eficazes e perfeitos, sem a possibilidade de falhar e ter o direito de ser “somente” bom no que fazemos. Daí surge mais uma lista de “obrigações de mercado”: solos perfeitos, técnica invejável, bases firmes e potentes, composições emocionantes, tocar diferentes estilos, ser um arranjador criativo, impecável nos trajes, ser garoto propaganda presente em todos os eventos, ser o cara legal e profissional, equipamento completo e versátil, saber falar, escrever, manter o Twitter com milhares de seguidores, e-mails em dia etc. Com o domínio do cognitivo em nossas vidas, onde fica o contemplativo? Tudo é cerebral e por si só deve ser perfeito e sob controle para estarmos felizes e satisfeitos. Não! No contemplativo atingimos o substrato do criativo, alcançando o contentamento e satisfação própria, egoísta e autocrática. Afinal, somos artistas antes de mais nada. Creio eu que a solução da questão é saber ligar o “f...-se” por muitas vezes e ignorar essas inventadas “obrigações de mercado”.


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