Blog do Kiko

Ásia: Descobertas e Aprendizados

Parte 1

A saga pela Ásia começou por uma interminável viagem a Xangai, onde o relógio biológico é trapaceado e o dia vira noite e a noite vira dia. O voo, que de bom só teve o sorriso das aeromoças, contou com a presença de brasileiros animados com a possibilidade de realizar “negócios da China” na Expo Shanghai 2010. E eu com minha guitarra nas costas e o desafio de agradar a iminente potência mundial. A “Expo dos olhos puxados” é igual a qualquer outra, a não ser pela liberdade de poder tocar no volume que bem entender, sem salas fechadas ou homens de preto com seus decibelímetros. Ensurdeci por três dias, mas competi à altura no estande da Laney, que contava com um line array de dar inveja a muitas casas de show.

Mas, na China, aventura mesmo é a culinária. Todas as noites participei de jantares, que sempre reservavam surpresas nas mesas giratórias dos restaurantes aristocráticos. O auge foi o jantar no qual foi servida uma suculenta cobra regada a “Chinese wine”, que de vinho não tinha nada: pura cachaça de arroz com 52% de álcool, curtida em cobras, gatos, ratos, abelhas e o que mais sua imaginação permitir. O restaurante parecia um laboratório do Butantã e me fez lembrar dos tempos em que estudava biologia na USP.

De Xangai fui para Osaka, Japão, onde o Angra foi convidado a participar de um dos maiores festivais de metal do planeta, o Loud Park Festival. Ozzy, Avenged Sevenfold, Motörhead e Angra como bandas principais de um dos dias do evento. Uma responsabilidade enorme. 10 mil nipônicos em Osaka e 20 mil em Tóquio. O Japão já conheço bem, mas é sempre uma surpresa ver aquela quantidade enorme de pessoas em puro silêncio enquanto esperam a entrada da banda preferida, uma multidão de cabelos lisos e pretos, olhos puxados sempre curiosos e observadores. Cenas impagáveis, como Ozzy pulando corda no backstage, também ficaram na memória. Porém, o mais difícil de tudo é a agenda sufocante dos japoneses. Tudo cirurgicamente cronometrado para que seja possível fazer inúmeras entrevistas, sessões de autógrafos e reuniões até meia hora antes e logo após o show. Um festival como este é praticamente como uma Copa do Mundo. Você tem 60 minutos para mostrar o porquê de ter sido “convocado” para aquela posição. Não há como evitar a comparação direta com outras bandas de grande porte, além de ser uma performance direcionada a um público notoriamente considerado superexigente.

Nesse ambiente, é fácil alguém do grupo ser tomado por um nervosismo contagioso. Para evitar isso, um bom estado de espírito de toda a banda é fundamental. Nada do que foi ensaiado e treinado valerá se a autoconfiança não estiver lá em cima. Uma arrogância saudável e consciente, imaginar que cada um do grupo está gabaritado para impressionar o mais incrédulo fã e a certeza de que anos de estudo nos colocaram merecidamente naquela posição são peças-chave para um controle emocional que fará com que a banda realize um show impecável.

Por fim, tudo saiu conforme havíamos planejado e, no dia seguinte, com a sensação de alívio, embarcamos para Taiwan. No próximo mês, a continuação dessa turnê inesquecível. Até lá!


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