Kiko Loureiro

ÁSIA: DESCOBERTAS E APRENDIZADOS (Parte 2)

Recém-chegado de uma turnê na Itália, que será tema de um próximo blog, continuo aqui descrevendo minhas aventuras na Ásia, conforme prometido na edição anterior.

Depois do Loud Park Festival, no Japão, o Angra foi a Taiwan para mais um concerto. Depois, segui sozinho, para realizar workshops em uma turnê repleta de descobertas.Viagens distantes sempre comprovam que o mundo da guitarra é muito semelhante e homogêneo, independentemente da etnia. Por isso, tocar ritmos brasileiros, músicas técnicas e melodias claras e bonitas na guitarra cativa o público seja onde for. Não há segredos. E assim fui eu me apresentar em lugares exóticos e desconhecidos do outro lado do mundo.

O workshop de Taiwan foi em uma praça ao ar livre, o que proporcionou a aproximação de transeuntes curiosos, que misturaram-se aos fanáticos pela seis-cordas. No dia seguinte, um longo voo para a Tailândia, na esperança de um dia sem compromissos para descansar. Mas eu já deveria ter aprendido que nessas viagens não existe dia livre e, caso haja um dia sem apresentação, pode-se esperar uma avalanche de entrevistas, visitas, fotos e jantares exóticos na agenda. E assim foi. Do aeroporto, levaram-me direto para uma conferência com revistas e programas de TV. Nesse país tão distante e diferente do nosso – apesar de similar quanto às mazelas e choques sociais –, chamam a atenção os táxis rosa e uma crendice existente entre as cores e os dias da semana.

O dia seguinte mais uma vez era livre, mas ninguém avisou que o “pinga-pinga” de aeronaves demoraria mais de dez horas. E lá se foi mais um dia de descanso. Cheguei à China moderna, do BRIC, a segunda potência econômica mundial, com o comunismo oculto pelos arranha-céus dos bancos internacionais. Não vi a muralha, mas vi rato em conserva, sopa de cobra, larvas, pombas e o que você possa imaginar. Uma aventura à la Discovery Channel nos workshops em Kumin, Guangzhou e Chengdu. Uma galera muito curiosa, tendo um contato recente com a música ocidental de guitarra e seus guitar heroes. Saindo da China, minha última parada foi a Indonésia. Tive o prazer de pisar em Sumatra, território que, em minha adolescência, conquistei tantas vezes no WAR. Nos poucos dias que estive lá, ocorreu tsunami, terremoto e erupção vulcânica. Somos realmente privilegiados pelo país que temos. Em Yogjakarta e Medan, os workshops foram gigantes e impressionantemente bem organizados, com público beirando as mil pessoas. Experiência inesquecível e tratamento de rei.

Dentre tantos acontecimentos especiais e diferentes, proporcionados por culturas tão diversas, não há como não tentar compreender o comportamento sócio-cultural e seus desdobramentos na economia e no bem-estar de cada pessoa que conheci e comparar com o nosso. Somos países semelhantes no que tange à economia emergente. Sabemos que o Brasil terá um futuro próximo promissor, mas o que mais me chamou a atenção é quanto os asiáticos planejam, organizam e discutem antecipadamente cada etapa que desejam realizar. Os eventos dos quais participei estavam sempre milimetricamente calculados e discutidos. Assim, o desenvolvimento caminha a passos largos, precisos e definitivos. Será que somos assim também? Minha vivência diz que estamos longe. Fiquei com a certeza de que colheremos frutos amargos por não sermos assim no tão propagandeado Brasil do futuro.


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