Kiko Loureiro

A FORÇA DO HÁBITO

Quem escolheu a vida de músico virtuose sabe que é um caminho difícil a percorrer. Nem sempre é uma opção premeditada – acontece naturalmente, pois, em algum momento na fase de aprendiz, surge uma devoção imensurável e nos sentimos amarrados ao instrumento e envoltos por música 24 horas por dia, sete dias por semana. São horas e mais horas despendidas de forma exagerada na visão daqueles que acham que a vida foi feita para socializar com outras pessoas. Nasce, assim, a figura do “adolescente ermitão”, que mora dentro de um quarto com uma guitarra... Esta dedicação plena, que gera um aperfeiçoamento técnico acima da média, torna-se quase uma obrigação ao longo dos anos, pois a identidade como músico fica atrelada à performance. É senso comum que música não é só técnica e, se olharmos apenas para este lado do prisma, não enxergamos a multicolorida função da arte. Este é o ponto crucial: encontrar desde cedo prazer no estudo dos diversos aspectos da música.

Esportistas de alta performance, por exemplo, sofrem muito com os treinamentos, mas em uma escala bem menor, afinal, eles lutam para atingir a excelência em um espaço de tempo bem mais curto. A televisão está aí para mostrar a transformação de alguns jogadores que, de seus físicos impecáveis em tempo de pelejas, viraram comentaristas com evidente sobrepeso. Outros podem virar técnicos, cartolas ou até mesmo políticos. Mas uma coisa é certa: eles não precisam mais se preocupar em ter qualidade de performance. Como Usain Bolt estará depois dos seus 35 anos? Todos sabemos como está hoje em dia a forma física de Ronaldo Fenômeno e como ele sofreu para se manter em alto nível quando ainda jogava futebol.

Além disso, um esportista que está na ativa sai de férias anualmente e depois, com o retorno aos treinamentos, consegue recuperar a boa forma anterior. E nós, guitarristas, podemos fazer isso? Será que conseguimos ficar um mês sem estudar técnica e depois recuperar a destreza? Com o passar dos anos, como fazer para mantê-la? É por existir essa preocupação com a constância do estudo e manutenção da capacidade mecânica que, recorrentemente, perguntam-me o que fazer no período de férias e viagens, pois ninguém quer regredir. Na verdade, técnica não é o único caminho da música. A parte lúdica, como criação e composição, é tão importante quanto. Intercale o estudo da técnica com a parte mais prazerosa. A meta é encontrar uma relação saudável com a música, para que ela se torne um costume diário em sua vida.

Alguns se cansam e logo se soltam da bola amarrada no pé que é o estudo de escalas e exercícios de todos os dias. Sempre haverá outras coisas que, com o passar dos anos ou durante férias ou viagens, será mais importante que a prática diária. Saber deixar a música participar constantemente de sua vida sem ser um estorvo é a chave para se tornar um grande guitarrista. Sempre que terminar de tocar, você deve sentir que foi o momento mais feliz do dia.

Existem grandes virtuoses de larga experiência que estão em plena forma: George Benson, com 69 anos; Allan Holdsworth, com 66; Steve Vai, com 52; e o baterista de 54 anos Virgil Donati, com quem, no momento, estou tendo o prazer de ensaiar e aprender a como manter a chama do entusiasmo pelo estudo da música. O segredo é criar um hábito tão forte e sólido de tocar, que acabe se tornando uma necessidade, uma fonte de energia e felicidade.
- Kiko Loureiro

Blog Guitar Player Brasil

Photo by Pei Fon

Comentários (0)

Fotos postadas a mais de 15 dias não podem receber comentários.