Kiko Loureiro e Virgil Donati

VIRGIL DONATI: DEDICAÇÃO INSPIRADORA

Existem uma força interna, um senso de comprometimento, uma dedicação plena e vontade de superação que são inerentes aos bons músicos. Se não tivessem, não seriam bons. Fato. Os muitos amigos e colegas de profissão com os quais convivi ao longo dos meus anos de carreira me deram exemplos claros – e variados – de como administram as distrações e obrigações da vida mantendo sempre a devoção à música em primeiro lugar.

Às vésperas de gravar meu DVD no Auditório Ibirapuera, em São Paulo (SP), passei primeiramente por um intensivo estudo de guitarra para me preparar para esta noite tão importante. Foram horas por dia relembrando as músicas, tocando-as lentamente e corrigindo vícios que peguei ao longo de shows e workshops. Depois, veio o momento de ensaiar com Virgil Donati (bateria) e Felipe Andreoli (baixo). Aí, sim, vi quem é a personificação da dedicação e vontade de superação que citei anteriormente.

Pra mim, foi um privilégio ter contado com Virgil Donati em meu álbum Sounds of Innocence e agora trazê-lo para uma série de shows no Brasil. Para quem não o conhece, esse exímio músico australiano radicado em Los Angeles, Estados Unidos, já tocou com Steve Vai, Allan Holdsworth, Frank Gambale, Neal Schon e Planet X e é uma lenda da bateria, pois trouxe conceitos incríveis para seu instrumento, o que faz dele um dos bateristas mais influentes das últimas décadas.

Os grandes aprendizados acontecem na convivência com pessoas de excelência. É fundamental estarmos cercados de pessoas exemplares, que nos alimentem com motivação, ensinamentos e conduta de vida. Convivendo com Virgil, fica claro que as coisas não surgem facilmente e que estar no topo do mundo em um ofício de altíssima performance – ainda mais considerando seus 54 anos de idade – é algo incrivelmente inspirador.

Por exemplo, durante os ensaios, era comum ele desistir do famoso intervalo para um cafezinho e ficar praticando mais. Ao término de um ensaio de quatro ou cinco horas, quando eu já estava cansado, ele ficava estudando sozinho por mais tempo – para melhorar o que já estava bom, testar novas possibilidades etc.

Mudanças constantes nos arranjos e experimentações durante os ensaios me chamaram muito a atenção. É um pensamento mais jazzista, em que, após memorizar a forma e entender o conceito da música, a criatividade deve estar sempre em exercício. Cada passagem da música era uma aventura. Virgil desafiando a mim, ao Felipe e a si mesmo. Essa abordagem é incrível, pois nos tira do automático, do lugar comum e da zona de conforto. É quando o cérebro está sempre ativo, buscando alternativas. Como Einstein disse : “Criatividade é a inteligencia se divertindo”. Assim, cada ensaio virou puro divertimento e, consequentemente, as horas passaram despercebidas e sempre havia um sentimento de “queremos tocar mais”.

Essa determinação sem igual, vontade de superação e busca constante pelo desafio à criatividade têm um resultado nítido na técnica, musicalidade e carreira de um instrumentista. Não é à toa que Virgil grava e excursiona constantemente pelo mundo, abraçando com facilidade inúmeros trabalhos e mantendo-se no topo da “cadeia alimentar” das sessões de gravação e turnês. Que ele sirva de inspiração a todos nós!
- Kiko Loureiro

Photo by Danillo Facchini

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