Blog do Kiko

SOU MÚSICO!

É cedo, ainda madrugada de céu cinza,
mas o aeroporto já está frenético, com
entradas e saídas, chegadas e partidas,
encontros e despedidas. Preciso acordar e
tomar meu rumo. Estendo a nota avermelhada
e ela me devolve o troco com a fichinha
amarela. Sorri com os olhos, vira-se
e sai para preparar o café expresso da
máquina italiana. Ela volta e o cafezinho,
com espuma na consistência correta, já
repousa na xícara branca. Enfim, ela sorri
por inteiro. Encosto-me no balcão, chego
perto. Estou à vontade e, enquanto mergulho
e giro a colherzinha de plástico,
ela pergunta, curiosa:
– Moço, o senhor é artista? É roqueiro,
moço?
Eu, que sempre achei mais elegante e
nobre, respondo:
– Sou músico.
Afinal, depois de tantos anos estudando,
mesmo sem bacharelado ou doutorado,
defini minha profissão.
– Músico, moça. Sou músico!
E ela continua:
– É de banda?
– Sim, sou. Tenho uma banda – respondo.
– Ah! Então, me dá um autógrafo, moço?
E ela me entrega, agora em branco, outra
fichinha amarela.
Não é fácil responder o que fazemos
e por que atuamos em nossa profissão.
Demora algum tempo para formarmos o
conceito. A guitarra foi minha parceira por
décadas – minha dedicação, minha paixão,
minha vocação. O interessante é que,
quanto mais sou reconhecido como músico,
artista, “moço de banda” ou roqueiro,
menos toco guitarra. Não me entendam
mal, toco todos os dias, mas pouco. Hoje,
levo minha música para tantos lugares, estou
presente em carne e osso em tantos
países diferentes, que nem me dou conta
de que o mundo é tão grande. Um dia, Filipinas,
em outro, Malásia, Coreia, Acre,
Paraguai, Maceió, Rio de Janeiro e muitas
outras cidades em continentes e países
distantes, com viagens de dar inveja a Júlio
Verne – tudo em um passar de poucas
semanas, muito menos que 180 dias.
A energia para exercer esse ofício com
alegria e disposição precisa de algo a
mais, estar acima de gostar de ser músico,
de considerá-la uma profissão nobre e
elegante. Podemos tocar no bar da esquina,
na garagem com amigos ou na frente
do celular para mostrar ao mundo... Menos
trabalho e mais música. A vocação vai
além das cordas, além da música, além da
fadiga amenizada pelo cafezinho.
Quando nos posicionamos como profissionais,
devemos nos perguntar não
apenas o que produzimos, o que queremos
ser ou como queremos que os outros
nos vejam. Nossa profissão é o que
fazemos para aqueles a quem servimos,
para aqueles a quem criamos um serviço
ou um produto.
Sou feliz em dizer que o que faço da
vida é estar presente pessoalmente, olhando
nos olhos de cada um que gosta da
música que faço e vivenciando com essas
pessoas momentos verdadeiros e genuínos.
Dividir a intimidade dos sentimentos
das músicas que compus com a intimidade
dos sentimentos dos que ouvem – interagir
e compartilhar, seja na euforia e alegria,
seja na tristeza ou melancolia.
– Moça, eu conto minhas intimidades
para quem quiser ouvir. Daí, gritamos,
choramos, rimos e pulamos todos juntos.
Essa é minha profissão.


Kiko Loureiro @ Guitar Player

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