04/01/06 - 11h:38mDenunciar

LEOTA & LUIZ DANTAS QUEZADO

LEONARDO MOTA E LUIZ DANTAS QUEZADO



Em 1923, quando se preparava para lançar o seu Cantadores, Leonardo Mota recebeu em sua casa a visita do poeta Luiz Dantas Quezado (nascido em 1850 em São João do Rio do Peixe-PB - hoje Antenor Navarro), que vivia no Cariri cearense desde a juventude. O velho poeta encontrava-se em Fortaleza acompanhando a publicação do seu opúsculo Glosas Sertanejas, do qual obtivemos uma cópia fac-similar da 4ª edição “correcta e muito augmentada pelo auctor”, impessa na Tipografia Commercial em 1925. Na oportunidade, Luiz Dantas apresentou à Leota o poema A bicharia, que figura na primeira edição de Cantadores, publicado pela Livraria Castilho, do Rio de Janeiro, em 1921. O tema ganhou diversas versões, inclusive uma de João Martins de Athayde, que o transformou em folheto de 8 páginas. Posteriormente, inspirou o compositor Zé Dantas (Siri jogando bola, gravação de Luiz Gonzaga) e, mais recentemente, o cantor e multi-instrumentista pernambucano Antônio Nóbrega (Coco da Bicharada, incluído no CD O marco do meio-dia). Excelente para ser lido e trabalhado nas escolas, apresentamos aqui a versão original de A bicharia, tal e qual se encontra em Glosas Sertanejas:



A BICHARIA

Autor: Luiz Dantas Quezado



Vi um Tiú escrevendo,

Um Camaleão cantando,

Uma Raposa bordando,

Uma Ticaca tecendo,

Um Macaco velho lendo,

Cururu batendo telhas

Um bando de Rãs vermelhas

Trabalhando n’um tissume

Vi um Tatu n’um curtume

Curtindo couro de Abelhas.



Vi um Coati marceneiro,

Vi um Furão lavrador,

Vi um Porco agricultor,

E um Timbu velho ferreiro;

Um Veado sapateiro,

Caitetu tocando “buzo”,

Punaré fazendo fuso,

Aranha tirando empate,

Vi um besouro alfaitate

Cortando roupa de uso!



Vi um peba fogueteiro

Soltando fogos no ar,

Vi Papa-vento mandar

À rua trocar dinheiro;

Carrapato redoleiro

Comendo farofa pura,

Um bando de Tanajuras

Empregado num café;

Vi um percevejo em pé

Com um grajau de rapaduras!



Vi um peixe de chocalho,

Formigão de granadeira,

Vi um camarão na feira

Comprando queijo de coalho,

Vi Calango num trabalho

Melado em mel de furo;

Seis víboras dentro do muro

Conversando em Monarquia,

Imbuá na freguesia

Tomando dinheiro a juro!



Vi mosca batendo sola,

Mucuim tocando flauta,

Caranguejo de gravata

E cabra jogando bola;

Vi pulga tocar viola,

Tamanduá engenheiro,

Guariba tocar pandeiro,

Vi um mosquito tossindo

Uma formiga parindo,

Procotó era o parteiro!



Vi um morcego oculista,

Cachorro vendendo cana

Jaboti de russiana

E um gafanhoto dentista;

Urubu telegrafista

Um gato tabelião,

Carneiro na Relação,

O Bode n’um escritório

Cassote de suspensório

Eu vi fazendo um sermão!



In Glosas Sertanejas, de Luiz Dantas Quezado, 4ª edição “correcta e muito augmentada pelo auctor”, Typ. Commercial – Fortaleza-CE; 1925. O referido poema figura também na primeira edição de Cantadores, de Leonardo Mota, publicado pela Livraria Castilho, do Rio de Janeiro, em 1921.





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