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Dalila Mello (nossa professora)

por asteriscos em 24/03/05 - 15h:33m

Furacão Dalila

MELCHIADES FILHO
EDITOR DE ESPORTE



Dalila Mello, 24, morava fazia cinco anos nos EUA. Tinha acabado de completar a bolsa na West Texas A&M University. Cogitava nem voltar ao Brasil, determinada a seguir a profissão de zootécnica. Mas a reportagem saiu na Folha, a confederação se deslumbrou, a comissão técnica anuiu, e Dalila entrou rápido e dourada para a história.
A seleção reestruturava-se, de olho no Mundial-94 da Austrália.
A CBB optara pelo tratamento de choque. Por isso a escolha do principiante Miguel Ângelo para substituir a tarimbada Maria Helena Cardoso. Por isso a decisão de enquadrar o grupo que havia brilhado no Pan-91 em Cuba. Por isso a dissimulada "bola preta" para duas vozes dissonantes, a armadora Branca e a pivô Marta.
Para a vaga desta, veterana de quase dez anos de convocações, havia as jovens e emergentes Alessandra, Leila e Cíntia Tuiú. Mas era pouco para silenciar os críticos. Por que, então, não experimentar a estudante que apareceu no jornal? A estampa "made in USA" dava credibilidade a ela. E a média de 18 pontos e 10 rebotes, registrada no campeonato universitário, mal não lhe fazia.
Assim, de orelhada em orelhada, Dalila atendeu o telefone em Canyon, Texas. "Na louca, de novo disse sim ao basquete."
As outras convocadas desconfiaram. "Fiquei isolada. É natural, pois nunca tinham me visto jogar", conta a "estrangeira", sobre o começo dos treinos, em abril de 1994, em São Roque (SP).
Mas Helen e Roseli ajudaram a quebrar o gelo. E Dalila, ainda por cima a menor das pivôs, com 1,87 m e 75 kg, sentiu-se à vontade para disputar -e assegurar- uma vaga na lista de embarque.
A campanha na Austrália foi vertiginosa como a convocação.
Segundo Dalila, as lembranças daquele junho, da mais extraordinária conquista da história do basquete nacional, misturam-se em um borrão. "Nós, treinando como zumbis por causa da diferença de fuso. A emoção no jogo com a Espanha. Os telefonemas para casa. As meninas se abraçando na quadra na vitória sobre as americanas. O torpor pela conquista. A química boa dentro do grupo, sem estrelismos..."
A pivô participou só de uma partida, a estréia, contra Taiwan: dois minutos, dois pontos em lances livres, uma falta cometida. "Nem disso me lembro bem."
A memória, no entanto, conserva intactos os sentimentos e as sensações da volta para casa. "A ficha caiu", repete a paranaense para descrever tanto a alegria da recepção quanto a falta de perspectiva profissional no esporte.
Dalila, que pegou na bola laranja pela primeira vez aos 15 anos, que só mergulhou no esporte por causa do irmão basqueteiro Rodrigo, que "não tinha jeito para a coisa" e ainda assim virou campeã mundial, contemplou o resto de 1994 e resolveu parar.
Ela ainda arriscou algumas semanas de treinos em Guarulhos. "Mas era a hora de pensar racionalmente", diz a hoje professora de inglês e esporte em Curitiba.
Ninguém sabe, ninguém viu: como veio, Dalila se foi. Mas ficou o trimestre de sonho, para ela e para o basquete brasileiro.

Década 1
De 2 a 12 de junho de 1994, na "madrugada" australiana, o Brasil atropelou Taiwan (112 x 83), caiu ante a Eslováquia (88 x 99), bateu a Polônia (87 x 77), ganhou de Cuba (111 x 91), perdeu para a China (90 x 97), superou no sufoco a Espanha (92 x 87), surpreendeu os EUA (110 x 107) e salteou a China na revanche pelo título (96 x 84).

Década 2
Entre as cestinhas do Mundial-94, três brasileiras: Hortência (1ª, 27,6 pontos por jogo), Janeth (3ª, 23,2) e Paula (5ª, 19,7). A seleção teve o ataque mais eficiente: 57,4% de aproveitamento nos arremessos.

Década 3
As 12 campeãs relembram hoje a façanha em almoço em São Paulo.

E-mail melk@uol.com.br



Fonte: Folha de São Paulo

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