14/06/05 - 08h:13mDenunciar

O vôo do beija-flor...

Jornalista Adélio Rosa







O sol ainda não havia surgido no horizonte, quando uma mulher bateu à porta do casebre. O Mestre meditava, enquanto Nashi, o discípulo, despertava de seu sono.

- Entre, disse o Mestre sem abrir os olhos.



A mulher entrou, observando o interior rústico do casebre. Sentou-se ao lado de Mahatma e disse:

- Senhor, preciso de seu socorro. Meu marido me abandonou, trocando-me por outra mulher. Eu o amo muito e não quero vê-lo com outra. O que devo fazer, Mestre?



Sentindo todo o sofrimento daquela mulher, o sábio abriu os olhos e respondeu:

- Mate-o. Se ele não viver contigo, não viverá com outra.



Nashi, o discípulo, por pouco não caiu de sua cama. Jamais imaginou que seu Mestre pudesse orientar alguém para o mal, principalmente numa circunstância de fragilidade, como se encontrava aquela mulher.



Sentindo-se aliviada com o conselho de Mahatma, a moça concordou que esta seria a melhor saída para não ver seu grande amor com outra mulher.



O Mestre disse:

- Vá à mata, na cachoeira da grande cascata. Lá você vai encontrar uma planta pequena com rosas amarelas. Colha algumas folhas, ferva chá e dê ao seu marido. Não lhe restará mais do que cinco minutos de vida.



A mulher foi-se.

Seguiu rumo à cachoeira.

Estava decidida a encontrar um meio de acabar com a vida do homem que tanto amava.

Ao chegar próximo à cascata, a mulher viu uma criança de 10 anos, sentada próxima a algumas flores, admirando o bailado de um beija flor.





A criança estava tão fascinada com o pássaro que não notou que a moça a observava, admirada.

Assim ficaram até que o beija flor foi-se embora. Então a moça aproximou-se:

- Vejo que você gostou muito do beija-flor!

- Sim! Estou apaixonada por sua beleza. Pena que ele foi embora.

- Por que você não o pegou e o levou consigo? Estava tão próximo de ti!





- Não dona! Não posso tirar a liberdade de uma criatura que nasceu para ser livre, apenas para satisfazer os meus desejos. Fui feliz enquanto ele bailou para mim e serei feliz sempre que puder lembrar da beleza de suas cores e da graça de seu vôo. Colocá-lo numa prisão seria condená-lo à morte. Há muita coisa bonita nesse mundo, para que eu possa ver, sem a necessidade de sacrificar tão belo pássaro.



A moça refletiu no que acabara de ouvir. Não colheu as folhas e seguiu para sua casa.



Naquele instante, não muito longe dali, num casebre rústico, um velho de olhos fechados, sentindo o silêncio profundo de seu discípulo, disse:

- O amor verdadeiro é composto de amizade e sinceridade. O falso amor é feito de amizade, sinceridade e egoísmo. Feliz é o homem que sabe reconhecer na fraqueza do próximo o limite para o seu egoísmo. E mais feliz será este homem se souber sentir no egoísmo dos outros, a luz que ilumina a sua evolução.



Nashi, o discípulo não compreendeu.





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