19/10/04 - 22h:59mDenunciar

Combate Noturno

Estava voando em uma de minhas rotineiras patrulhas de combate noturnas de grande altitude. Eram 00:45 e havia acabado de realizar a checagem dos parâmetros da turbina de meu P-80. O altímetro marcava 35.000 pés e a velocidade indicada era de aproximadamente 270 milhas por hora. Estava uma noite um tanto bonita e calma, o que me permitia, mesmo que por breves instantes, esquecer das fúrias e conflitos existentes ao nível do solo devido à grande guerra. Aparentemente as únicas coisas que estavam acima de mim naquele momento era o azul marinho, a lua cheia e as estrelas, até que por volta de 00:50 reparei um rastro de fumaça semelhante a uma nuvem tipo cirrus, numa altitude ainda superior à minha (algo um pouco difícil para a maioria das aeronaves da época). Resolvi por precaução realizar mais uma checagem de instrumentos enquanto rastreava o misterioso rastro pelo canto do olho. Continuava tudo ok e como ainda haviam 75% de combustível e a temperatura estava dentro dos padrões normais de operação, resolvi acionar o pc para aproximar-me com cautela e fazer uma melhor averiguação do que de fato era aquilo. O silêncio rádio era mais que uma regra, era uma obrigação até para me manter vivo, portanto não havia a mínima possibilidade de vetoração via radar de solo caso perdesse aquela coisa de vista. Sua posição em meu cockpit era de 10 horas, aparentando seguir um rumo noroeste-sudeste e como encontrava-me rumando para o norte, não foi difícil realizar uma curva de aproximadamente 30º à esquerda para realizar uma interceptação frontal. Na época sabíamos nossa localização simplesmente por anotações de timing em determinadas proa e velocidade, além de levarmos grandes mapas dobrados dentro dos bolsos de nossos macacões de vôo, o que obviamente era bastante inconveniente de ser aberto dentro de um apertado cockpit. Repentinamente a "coisa" aproximava-se de um ângulo de 90º na vertical da minha aeronave e rumando em direção oposta à mesma. Começo a levantar meu rosto para manter visualização e percebo que parte do rastro, antes linear e uniforme, tornara-se um singelo porém bem definido "s". Automaticamente imaginei que era um tunneau e que aquela coisa estava iniciando uma manobra chamada split-s e, dependendo das capacidades de seu ocupante, poderia ser um cheque-mate contra minha aeronave e ainda contra mim. Desta vez infelizmente eu estava certo, e a trajetória passara a descrever uma leve curva que na verdade era o início do mergulho em minha direção. Imaginei que ele deveria estar a uns 60 mil pés e que eu estaria apto a tentar me safar desta realizando manobras evasivas em até 5 segundos a partir daquele momento... Se ficasse parado, ia acabar virando pó. Manche para a esquerda, horizonte artificial girando para o lado oposto e deixo de aplicar o comando até que aquele indique 90º de inclinação. Então, realizo uma cabrada até um desvio de 30º na bússola, o que me parecia ser um agente dificultador em potencial para o meu atacante. Naquele momento sentia-me incapacitado e acreditem, uma das piores sensações que um piloto militar tem é aquela de se encontrar numa posição defensiva durante um combate. Repito o movimento desta vez para a direita e ao mesmo tempo que puxo o manche viro o meu rosto para a esquerda em direção ao céu e o rastro está cada vez mais próximo e veloz. Quando começo a curvar à esquerda dando continuidade às manobras, aquela aeronave misteriosa passa atrás de mim tão rápida quanto uma bala o que me impossibilita de vê-la com maiores detalhes, dando sequência em sua manobra descendente. Já imaginava que sua propulsão dava-se por meio de um motor à foguete devido à fumaça e a capacidade de voar a tão grande altitude, algo que foi confirmado quando o clarão das chamas que escapavam do bocal de exaustão foi capaz de fornecer mais claridade aos instrumentos do meu painel. Imaginando estar numa posição positiva, coloco-me no dorso e procuro a imagem do meu sagaz e misterioso colega e consigo ver um vulto de sua fumaça realizando uma recuperação do mergulho e tomando em seguida uma atitude de subida. Aproveitei o pequeno intervalo para olhar mais uma vez ao painel e percebi que a série de manobras evasivas me fizeram perder 5 mil pés. A temperatura estava alcançando um ponto mais elevado, o que por cautela me fez recuar um pouco a manete de potência. O inimigo aproximava-se da linha do horizonte à minha frente numa atitude de subida vertical, nossa, parecia que ele nunca perdia aquela energia de subida, era mesmo incrível. Resolvo então arriscar: potência máxima novamente e manche cabrado, vamos ver até onde consigo acompanhar aquele foguetinho... Da mesma maneira porém com certa dificuldade, coloco o meu Shooting Star na vertical e em seguida realizo um giro de 180º para possibilitar-me a visualização pela parte superior do canopy. De repente, sinto uma trepidação diferente e ouço o som característico da queda de rotações da turbina, imediatamente confirmado pelo tacômetro... A última coisa que desejava naquele momento era um estol de compressor durante uma subida vertical e no ar rarefeito da altitude de nível 350... Para complementar a pane, a "árvore de natal" (maneira carinhosa de chamar o painel iluminado) também havia acabado de cessar o trabalho das suas luzes. Não sei precisar o tempo, uma vez que em situações de crise os segundos nos parecem horas, mas durante algum período fiquei sem saber o que fazer, apenas observado o meu atacante terminar a sua subida e iniciar mais um mergulho em minha direção, como que tivesse descoberto a minha tremenda mancada... Recordo-me então da lanterna em "L" que levamos em nossas missões noturnas acopladas no colete de equipamentos e por sorte, havia me lembrado antes de decolar de encaixar a lente vermelha de baixa visualização, ideal para cenários de batalha onde não se quer chamar muita atenção. Quando a ligo, assusto-me com a velocidade de 50 milhas no velocímetro e caindo cada vez mais. O inimigo também já estava caindo sobre mim, aproximadamente a uns 20º em relação ao meu nariz que encontrava-se na vertical. Deveria no entanto me concentrar em retomar o controle e re-acionar a turbina, por mais difícil que fosse ignorar a situação defensiva na qual me encontrava. Chego no topo do estol, gravidade 0 por breves instantes juntamente com os clássicos solavancos e então nariz para baixo 90º. Sem APU ou qualquer unidade de acionamento pneumático, o próprio ar que passava pelo interior da turbina seria a minha única fonte de energia para o acionamento. Com o silêncio, desta vez fui capaz de ouvir a coisa passando perigosamente à poucos metros de mim... Seu som e luz eram semelhantes ao de um rojão, aparentando estar dentro de minha cabine e passando por trás de minha cabeça de cima para baixo. 200 milhas de velocidade indicada e então consigo retomar a turbina e iluminação do painel. Desta vez o oponente está descendo bem na minha frente porém numa velocidade assustadoramente mais alta, o que na verdade foi fato durante todo o combate. Mesmo com pós-combustão não consigo alcançá-lo e vejo que ele começa a puxar o manche para mais uma vez retornar ao seu habitat das grandes altitudes. Numa última tentativa puxo o manche junto com ele e imagino que realizando os movimentos certos e com antecedência, talvez ainda tenha alguma chance de interceptá-lo. Então nivelei a minha aeronave rumando para a direção que imaginava ser capaz de vê-lo passar durante a subida bem na frente das minhas .50, habilitando-me ao tiro. Infelizmente, mesmo em atitude vertical, sua distância horizontal era tão grande em relação à mim que um tiro serviria apenas para desperdício de munição. Lembrei-me que as aeronaves a foguete consomem combustível muito rapidamente e que voando todo aquele tempo em potência máxima, o meu colega já deveria estar com pouca grana na conta corrente (termo utilizado para se referir ao combustível). E desta vez percebi que felizmente estava certo quando o vi retomando sua altitude de cruzeiro e trajetória linear. Só me resta agora localizar minha posição e utilizar os 50% de combustível remanescente para retornar para casa e contar a estória...



André Felipe Ayres Carvalho



Obs.: a estória acima descrita tem caráter simplesmente imaginário, sendo portanto qualquer semelhança em relação à outras ou quaisquer fatos reais ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial mera coincidência.

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