25/01/05 - 18h:52mDenunciar

Cão que ladra...





de Thedy Corrêa





"Os dentes do cachorro começaram a perfurar minha perna atravessando o grosso tecido de minha calça e alcançando a carne macia da batata-da-perna, ou panturrilha, como costumam chamar os locutores de futebol.. A dor era lancinante e a sensação do sangue escorrendo e chegando até meus sapatos era semelhante àquela que experimentei quando de minha última crise de incontinência urinária. Era uma Oktoberfest, eu bebi muito além do que meus rins tinham capacidade de filtrar. O banheiro era longe e a fila era enorme. O pior mesmo foi dançar o resto da noite com os sapatos encharcados. Mas voltando ao cachorro. Os dentes caninos causaram um estrago, mas não foi o suficiente para me fazer esquecer o latejar do enorme hematoma que crescia em minha testa, logo acima de meu olho direito. Um galo e tanto. Arrastei-me fazendo, um enorme esforço, em direção a uma grande pedra que estava próxima. Quando a alcancei, reuni todas minhas forças e cheguei a quebrá-la com a força do golpe que desferi contra a têmpora do meu agressor. Ele largou minha perna e eu fiquei observando seu movimento trôpego até que ele finalmente desabasse inerte como um pelego escuro e sem vida. Um pelego seria bem vindo, já que o frio era cortante e eu estava despido da cintura para cima. Tentei recuperar a normalidade de minha freqüência respiratória, apesar do ar gelado invadir minha boca e pulmões causando-me calafrios. Eu tinha que sair imediatamente do pátio daquela casa. Conhecia muito bem o seu proprietário e sabia que se ele me descobrisse ali, minhas chances de voltar a dançar em qualquer outra Oktoberfest em minha vida seriam zero. Agradeci à voracidade silenciosa do cão que preferiu o ataque surdo a minha perna ao alarme. Tenho a mórbida certeza de que um encontro com o dono da casa seria ainda muito pior. Eu tinha que sair dali. Resolvi me concentrar na tarefa de levantar do chão. Respirei fundo e fechei os olhos - só o esquerdo, pois o direito já não abria mais devido ao golpe que recebi há menos de uma hora atrás e que inchava insistentemente. Pelo menos não sangrava. Fechei o olho e comecei a pensar em como havia chegado àquela situação.(...)"



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