Religões do Japão

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O Xintoísmo (Shintô) e o Budismo (Bukkyô) são os principais protagonistas do cenário religioso japonês. Porém, séculos antes dessas tradições religiosas tomarem corpo no arquipélago, inúmeras manifestações do sagrado já se faziam presentes -- achados arqueológicos (como clavas de pedra e figuras de barro) sugerem ritos de fertilidade e práticas mágicas; com a introdução da rizicultura surgem as cerimônias religiosas ligadas a cada aspecto do cultivo do arroz; escritos chineses antigos falam de práticas xamânicas, mediúnicas e adivinhatórias entre os japoneses do começo da era cristã.
Até o século VI, as crenças autóctones não se encontravam organizadas teologicamente ou centralizadas numa única instituição. Nessa época, em que fora introduzido oficialmente o Budismo no Japão, via Coréia, sacerdotes ligados à corte começaram a organizar as crenças nativas, para distinguí-las do ensinamento budista, sob as denominações alternativas Shintô, Kami-no-michi ou ainda Kannagara-no-michi (shin/kami/kan, “deus”, “espírito”; tô/dô/michi, “via”, “caminho”). Se, por um lado, a tradição proto-xintoísta, para sobreviver ao impacto da introdução do Budismo, teve de organizar-se tomando emprestado da religião importada termos, doutrinas, iconografia etc; por outro, o Budismo, sendo uma religião originária da Índia, também teve de “japonizar-se” e fazer empréstimos da tradição religiosa dos japoneses para conquistar seus corações.

Essas duas tradições religiosas mantiveram uma duradoura e frutífera relação simbiótica ao longo dos séculos e desenvolveram uma espécie de divisão de trabalho, particularmente no que tange a ritos de passagem. Enquanto o Xintoísmo se relaciona mais freqüentemente com ritos de nascimento, matrimônio, inauguração de edifícios etc, o Budismo mantém-se na esfera do culto aos antepassados e rituais fúnebres.
Além do Budismo, cumpre ainda citar o papel do Confucionismo (Jukyô), do Taoísmo(Dôkyô) e do Cristianismo (Kirisutokyô) no mosaico da religiosidade nipônica. O Taoísmo, ensinamento de origem chinesa que enfatiza práticas místicas e a ordenação do Universo, foi adotado oficialmente no Japão no ano 702, como Repartição Governamental de Adivinhação (Onmyôryô). O Confucionismo, escola filosófica chinesa que enfatiza a ação social e a ordem política, tornou-se o fundamento moral e ideológico da elite governante no período Tokugawa (1600-1868). Embora ambos não tenham-se tornado religiões formais no Japão, as práticas adivinhatórias e certos conceitos taoístas foram perpetuados na religiosidade popular, enquanto a ética confucionista passou a reger as relações sociais e influenciou praticamente todas as religiões no Japão. O Cristianismo foi introduzido no país em 1549 por São Francisco Xavier e obteve ampla aceitação no primeiro século de prosetilismo cristão. No entanto, ele ficou proibido de 1639 até o final do século 19, e não se tornou uma religião “naturalizada” como foi o caso do Budismo.
Essas tradições religiosas não ficaram separadas, diferenciadas ou livres de influência recíproca na história multi-milenar do país, resultando numa cultura onde a afiliação exclusiva a determinada religião é uma exceção, e onde o sincretismo é uma constante. De fato, o Japão é um dos raros países no mundo onde as pessoas veneram divindades de religiões diferentes sem maiores constrangimentos; onde há capelas de uma religião no espaço sagrado de outra; ou um sacerdote de uma religião conduza cerimônias em outra religião.

Tal atitude flexível e pragmática frente à religião pode ser creditada como um dos elementos que facilitou, por um lado, a integração dos imigrantes japoneses no universo religioso brasileiro; por outro, a difusão das religiões japonesas fora da colônia nikkei.

Fonte: fjsp.org.br

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