30/01/07 - 20h:11mDenunciar

Homenagem Torcedor Ilustre Zé Cândido II

Hoje, aos 84 anos, Zécandido vai com freqüência aos jogos do seu amado Tricolor de Aço. Nos jogos realizados no PV, é possível encontrá-lo atrás do gol adversário, quando o Zé se posta de pé, segurando no alambrado. Invariavelmente está acompanhado do filho Oswaldo, o nosso Oswaldo Fontenele, um dos fundadores da primeira torcida organizada do Nordeste, a saudosa Garra Tricolor, embrião de todas as outras organizadas no nosso Estado.



Oswaldo é há 26 anos um grande amigo. Companheiro para todas as horas, de muitas farras e de excelente caráter. Dos filhos do Zécandido, tenho a honra de ter como amigas as queridas Conceição, a "Loura" da Garra, (Se falasse o nome verdadeiro, poucas pessoas saberiam de quem se tratava e a Ana Paula, a "Paulinha da Garra Tricolor", a irmã mais nova do Oswaldo. Era assim que chamávamos. Pense numa torcida para ter gatinhas! Não foi à toa que mais de dez casamentos surgiram dentro da Garra. Como já citei na Calçada do Airton Fontenele, tínhamos naquela época um carinho e um respeito enormes pelas meninas, principalmente pela Paulinha, pois tratava-se de uma adolescente. Brincávamos com o Oswaldo, chamando-o de cunhado, mas ele sabia que aqueles "gaviões", ou melhor, "leões", jamais chegariam a faltar com o devido respeito para com suas manas.



Por muitas vezes, em dias de jogos, Loura e Paulinha iam de carona comigo. Além das duas, um amigão que não vejo há muito tempo. O Isneudo, totalmente sem juízo, maluco total... Pensem num cabra doido. Estando ao lado dele, enfrentava de turmas.



Bem, já mencionei os filhos do Zécandido, que fazem parte da minha corriola, mesmo porque, não poderia deixar de fazê-lo. Mas vamos ao prato principal deste número, ao titular deste mês. Zécandido nasceu em Fortaleza, em 21 de junho de 1922. Pais: Francisco Fontenele e Benilda Silveira Fontenele. Faz parte da lista dos melhores jogadores do pebol alencarino de todos os tempos. "Atuou com Centroavante, Ponta-de-Lança ou Meia Direita. Sabia marcar gols de bela feitura e, apesar de franzino, encarava os zagueiros mais fortes, sem temê-los". Assim escreveu o jornalista Hilton Oliveira, em seu cadernos especial "Museu da Chuteira", na edição de 08 de agosto de 1992, na Tribuna do Ceará.



Uma síntese da sua carreira como jogador, técnico e presidente no futebol cearense.



1936/37 - Infantil do Fortaleza, campeão de 1937, jogando ao lado de Piolho, que depois seria destaque no time principal;



1938 - Integrou algumas vezes o time do Ginásio São João no Campeonato Cearense, tendo como companheiro o inesquecível França, então conhecido como “Antropométrico”, por trabalhar naquele tradicional colégio;



1939 - Atuou várias vezes no time de Aspirantes, ou 2º Quadro como chamavam, do Maguary, juntamente com futuros craques Walden Luiz, Edilson (irmão de Airton e Tancredo do 1º time), Armando Pinheiro, etc... O time titular era formado por verdadeiros "monstros sagrados" de nosso futebol: Osires, Cirino e Gambetá;Tancredo, Airton e Walter (a decantada "linha maginot"). Mamede, Jandir. Matuca ou Nivoia e Bacurim.



1940/41 - A ESTORIA DO NORMALISTA: "Time das Normalistas". Era assim o apelido do Penharol, pois sua indumentária era igual à farda das alunas da Escola Normal: blusas brancas e calções vermelhos. Zécandido é personagem de nome com letreiro luminoso dessa época, uma fase romântica, apaixonada, risonha e inocente, de uma cidade ainda sem vícios e quase sem pecados. Ela faz questão de ressaltar que “Fui Penharol devido às garotas da Escola Normal. Foram os anos de ouro, de 40/41, da minha vida esportiva. Manhãs de sol no campo do Alagadiço. Torneios entre clubes suburbanos”. Na singeleza de sua narrativa a força da comunicação de uma boa memória. Continua o Zé: “O campo do Penharol era de barro batido e dificilmente um time ganhava da gente lá no "torno". Quando a bola batia, o jogador do Penharol já sabia onde ela ia cair... Era uma tremenda vantagem para nós. Enquanto o adversário ainda a procurava, geralmente ela já dormia em suas redes...” As manhãs de sol no campo do Penharol não eram apenas manhãs de futebol entre clubes suburbanos. Eram as reuniões que a juventude de hoje faz nas bordas das piscinas do Náutico, da AABB, do Ideal, do BNB, entre outros clubes. Valia como local de namoro, início de idílios que culminariam ao pé do altar. Muitos ilustres médicos, engenheiros advogados e altas patentes militares de nossos dias nasceram do amor surgido naquelas sadias e agradáveis manhãs esportivas no campinho do Penharol, no fim da linha do bonde do Alagadiço.



Zécandido fez parte de dois diferentes times do Penharol. O primeiro, de 1940, era mais fraco, mas aplicou uma sensacional zebra ao derrotar o todo poderoso Ferroviário, por 4x3 (Mário Dias, o herói com três gols o outro do Zécandido). Em 1941, o time das "Normalistas" formou um grande time, especialmente o ataque com Mamede (ex-Maguary), Zécandido, Chaguinhas Chiquinho e Coronel. Na intermediária, chamada de linha-média, tinha o notável centro-médioCarinha (ex-Fortaleza ). O time fez boa campanha no certame cearense e, ainda em 1941, honrou o futebol local em duas temporadas: Goleou o Fast, de Manaus/AM, por 7 a 1 (Zécandido assinalou um gol) e perdeu para o portentoso Bahia/BA, por 5 a 3, jogos realizados no velho barreiro do Prado, pois o PV seria inaugurado meses depois, em 21 de setembro de 1941.



1942 - Teve uma rápida passagem pelo Ceará. Na época, o Alvinegro tinha cinco grandes atacantes. A convite do Dr. Ubirajara Negreiros, do América, transferiu-se para o clube rubro cearense, formando outro grande ataque: Carrim, Maurício (ex-Maguary), Joelito, Zécandido e Zé Roberto. Teve duas vitórias históricas no certame cearense: 4x3 no Ceará, em 21 de maio de 1942, e 3x0 no Fortaleza, em 05 de julho de 1942.



1943/44 - Ingressou no Fortaleza, time pelo qual tinha jogado nos tempos de infantil e que o revelou para o futebol em 1936/1937. “Alcancei em 1943 tudo o que mais desejava: jogar no Tricolor de Aço, o glorioso Fortaleza Esporte Clube, no qual me iniciara como atleta. Nessa época, o Fortaleza organizava uma magnífica equipe, valendo-se de jogadores de outros centros e daqui também, que estavam convocados pelo Exército e caiam sob as ordens do então sargento Mozart Gomes. E Mozart arrebanhara gente muito boa, inclusive Alfredo II, profissional do Vasco da Gama que aqui passou uma temporada como soldado do 23 B.C. Alfredo era um excepcional jogador. Titular do Vasco e, em 1950, no auge de sua carreira, seria vice campeão do mundo pela Seleção do Brasil. Havia ainda: Alcir, um zagueiro carioca de muito valor; Gaio e vários outros. O time era tão bom que, em 1943, enfrentou a seleção cearense num match-treino e a derrotou por 2 x 0, dois gols do magistral Stênio”. Em 13 de junho de 1943, participou de nosso maior clássico, Fortaleza 1 x 0 Ceará, pelo segundo turno do cearense, no PV, tendo como árbitro o folclórico Teopisto Carvalho, sendo técnico do Tricolor de Aço o lendário “Gavião” (Valdemar dos Santos). O Fortaleza formou e venceu com: Puxafaca (companheiro do Zécandido no Penharol e no América), Alcir (carioca que aqui servia ao Exército e foi descoberto pelo então sargento Mozart Gomes). Zé Félix, Biinha, Dandoca, Odilon, Ciro, Zécandido, Zecapinto, Benedito e Zé Walter. O Ceará perdeu com: Rui, Camilo, 28, Tôrres, Zuza, Babá, Balinha, Idalino (anos depois, protagonista de dois terríveis crimes em nossa capital), Pirão, Tibiduta e Mitotonho. O gol foi de Dandoca. O Zécandido, por estar servindo ao Exército em plena época da Segunda Guerra Mundial e adoentado, praticamente não jogou em 1944. Porém, teve um jogo naquele ano em que ele atuou ao lado de Alfredo II.



1947 - Em outubro, Zécandido fez parte da Delegação Acadêmica de Esportes Cearenses, em excursão a Recife, envolvendo futebol, vôlei e basquete, ao lado de vários outros craques do Gentilândia, como Cândido, 292, Orion, Ossian Araripe e Zemilton.



1948/1952 - Após um longo período afastado dos gramados, voltou a atuar em 1948, ingressando no Gentilândia, formado por amadores e nele permanecendo até 1952, quando resolveu pendurar as chuteiras. Naquele ano de 52, o clube ingressou na primeira divisão. Entre seus jogadores figuravam: os irmãos Stênio (ex-Maguary e Fortaleza; Jogou também no Botafogo do Rio, em 1944, uma vez no lugar do famoso atacante Heleno de Freitas) e Stélio, Airton Monte, Eduardo Carneiro, Alfredo Linhares (“Galo Duro”, irmão de Aloísio Linhares), José Mário Mamede, Luciano Montenegro, Edílson Carneiro (o nosso querido Mandrake), Zemilton, Denísio, Adelino Alcântara, Anselmo, Valter, Orion, Moacir Ciarlini, Gines e o próprio Zécandido. Fez algumas partidas pelo Alvi-Anil. Assumiu como técnico e foi eleito em 1950 o presidente do clube. Assim, talvez seja o único homem no pebol brasileiro que foi, ao mesmo tempo, presidente, técnico e jogador de um clube de futebol e que tenha marcado um gol de pênalti.



Zécandido formou-se em Contabilidade (Academia do Comércio) e em Odontologia (na Faculdade de Odontologia do Ceará - Turma de 1947). No entanto, optou pela atividade comercial, na Organização Silveira Alencar (SILCAR ), onde trabalhou por mais de 50 anos, a partir de 1939, até ocupar o cargo de diretor. Seu apelido é “Farnumzinho”, devido a ser fã de Farnum, um notável atacante do Ceará dos anos 30. Gosta de lembrar de haver sido levado para o Gentilândia a convite de Armando Pinheiro, seu colega no Colégio São João. Zécandido diz que o Gentilândia era conhecido como clube dos Acadêmicos, por ser formado por vários jogadores formados ou estudantes em cursos superiores, tais como: Wildson (Contador), Ossian Araripe (Direito), Edilson "Mandrake" Carneiro, Zé Walter, José Mário Mamede, Sérvulo Barroso, Zécandido, Edilson Lima Gomes (Odontologia), Denizio (Medicina), Paulo Mamede e Moacir Ciarlini (Farmácia), Cândido (INSS), Alfredo Linhares (Professor), Newton Studart (Economia), Orion (Agronomia), Haroldo Guimarães (Direito) e Haroldo Castelo Branco (Escola Militar ). Quando foi campeão em 1956, o Gentilândia contou na sua formação com craques geniais: Pedrinho Simões, Fernando Sátiro, Wiliam Pontes, Pipiu, Edilson e Liminha. O último campeonato disputado pelo Gentilândia foi em 1965. Uma das maiores goleadas do pebol cearense de todos os tempos, uma das maiores, não a maior, aconteceu em 1962, quando o Fortaleza aplicou 12 x 0 no Gentilândia e o então craque, Haroldo Castelo Branco, jogava em todas, fez simplesmente sete gols. Naquele ano, Haroldo foi o artilheiro do Campeonato, com 31 gols.



Em junho de 2004, Airton Teixeira Monte, nosso Airton Monte (o pai), ex-radialista, jogador do Gentilândia, grande conhecedor do futebol mundial, principalmente o argentino, e ex-combatente, revisor de pára-quedas durante a Segunda Grande Guerra, gaba-se que “Até hoje, nenhum pára-quedista voltou para reclamar de meu trabalho. Até hoje, nenhum voltou”. É assim que o Airton, hoje com 80 anos, responde-nos quando perguntamos se ele foi um bom revisor de pára-quedas. Deixemos o Airton de lado... Um dia desses ele estará aqui, merecidamente.



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