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Mundo Submerso

por nandaslz em 29/06/05 - 10h:45m

Nessa tarde, de um azul que eu não mereço, olho ansiosamente na parede do meu perfil. No lago da memória se reflete a sombra pensativa de paisagens submersas. Habitei esse mundo. Por isso ainda conservo nos olhos, nos ouvidos, o lodo desse morto silencio. Antigamente, não era lodo, era chão de barro. Tenho velhos compromissos com esse solo barrento, onde havia uma velha casa cheia de rumores festivos. Olho-me ao londe e mal reconheço a criança morena e pálida que se comovia com o canto dos pássaros.Concentro-me e ouço qualquer coisa que me pareça musica, mas vêm de tão longe! De fato, um disco roldo rola na vitrola, rola, musica sem sons, canção sem ruídos, que no chão de silencio se desmancha, mancha de branco sobre branco, ausencia sobre ausencia. Lodo de tantos anos nos olhos, nos ouvidos, Morreu a casa.A voz morreu. Somente o lodo resiste ao tempo e ao olvido.
Não, nada disso pertence à biografia. Esta é registro de datas e acontecimentos: nasci em tal ano, estudei em tal colégio, tive sarampo, tosse comprida, caxumba. Mas como mutilar um homem, separando-o de seus fantasmas? Acaso estaria eu completo arrancado àquele mundo submerso? Decididamente, renuncio aos cartazes de livraria e aos clichês do noticiário: não escreverei memórias.
Se algum dia tiver que me contar, farei talvez, se sobrar o tempo, um poema - poema é só poema, não poesia. Poema se faz com papel, tinta e suor - poesia, é estado de graçam ,sonambulismo e transfiguração.O melhor, porém, é não escrever nada, nem versos, nem memórias, nem espopéia nem biografia.O que há de mais importante e secreto em nós é incomunicável e intransferível.O homem não é mais que sua vida - porém muito menos que seus sonhos.
Luís Martins, Ciranda de Ventos

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