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O Rei Leão e seu Sucesso

por oreileao2 em 10/12/05 - 05h:08m

Passados mais de dez anos desde seu lançamento nos cinemas, muitos acham difícil de entender o receio da Disney em relação ao filme na época. Ao contrário dos então recentes sucessos do estúdio baseados em contos-de-fada e obras literárias, O REI LEÃO era uma história totalmente original, sem nenhuma prévia relação com o público.

Muitos executivos (incluindo o ex-chefão da animação Disney, Jeffrey Katzemberg) achavam que o público não se interessaria em uma história não conhecida tendo animais como protagonistas. De fato, o próprio produtor Don Hahn teve problemas para convencer os artistas do estúdio a participarem da produção, tendo em vista que O REI LEÃO era considerado um projeto B e que todos os principais artistas queriam trabalhar em POCAHONTAS. Mais de 300 milhões, duas seqüências, uma série de TV e milhões de cópias vendidas depois, podemos afirmar que todos os negativistas estavam enganados.

Verdade seja dita, seria difícil O REI LEÃO fracassar tendo em vista o status dos Estúdios Disney na época, com uma recente lista de grandes sucessos como A PEQUENA SEREIA e A BELA E A FERA, e ainda com a ousada campanha de marketing que apresentava um trailer contendo a magnífica seqüência inicial “Circle Of Life” em sua forma completa. Desde que aquele sol brilhou sob as savanas em um céu avermelhado com o eloqüente grito do cantor Lebo M como fundo, havia pouca dúvida que O REI LEÃO não seria nada menos que um espetáculo.
Com inspirações vindas de “Hamlet” (ou ao menos até que os fãs de anime provem ao contrário), O REI LEÃO conta a história de Simba, um filhote de leão nascido nas selvas africanas cujo destino era herdar o trono do pai, o rei Mufasa. No seu caminho estava Scar, seu invejoso tio que planeja a morte de pai e filho para que possa se apoderar do trono. Quando Simba se vê injustamente acusado pela morte de Mufasa, sua única chance de salvar sua vida é se exilar das Terras do Reino. Ele encontra abrigo junto a outros dois excluídos da sociedade, um javali chamado Pumba e um suricate chamado Timão. Anos depois, ao ser descoberto por Nala, sua amiga de infância, Simba deve decidir se deve assumir suas responsabilidades como rei ou seguir com seu estilo de vida despreocupado.

O filme que foi apelidado de “Bambi na África” em seus estágios iniciais de produção acabou ganhando vida própria, com seus personagens e canções entrando para o consciente popular. “Hakuna Matata” foi introduzido ao vocabulário de vernáculos, e seus intérpretes se tornaram populares o bastante para ganharem uma série de televisão própria. O REI LEÃO não apenas se tornou um dos filmes mais populares de todos os tempos, mas também marcou o ponto alto da chamada Era de Ouro da Disney na década de 90, tão alta que até hoje não foi superada pelo estúdio do Mickey.

O REI LEÃO não é relacionado ao clássico de Walt Disney sem fundamento: o filme realmente apresenta muito dos mesmos temas de BAMBI, como o ciclo de vida, morte e renovação. E assim como no filme de 42, em O REI LEÃO temos elementos mais sombrios que na maioria das animações Disney. Enquanto as gerações passadas choravam com a morte da mãe do pequeno cervo, a atual ficará para sempre marcada pela cena da morte do rei Mufasa.

Todos já devem conhecer os ingredientes que fazem deste filme um absoluto sucesso, mas a verdade é que os mesmos faltam em muitos dos filmes de animação lançados nestes últimos cinco anos. Assim como a maioria dos filmes Disney, O REI LEÃO apresenta personagens que sofrem uma transformação ao decorrer da história – neste caso, não em termos físicos, mas sim de personalidade. Temos aqui a história de Simba, que ao fugir de suas responsabilidades como rei resolve dar as costas ao legado de seu pai e tudo o que ele representa, apenas para anos mais tarde ter de refletir se deve voltar e enfrentar o seu passado. São tais temais que dão a O REI LEÃO uma profundidade que o fará para sempre estabelecer um laço com sua platéia, independente de geração ou idade. Os diretores ainda executam um excelente trabalho ao contrabalançar estes momentos mais sérios com outros de maior humor com grande habilidade (ao contrário de O CORCUNDA DE NOTRE DAME, por exemplo, onde tais transições soam forçadas), criando um épico que não fará pais constrangidos nem filhos aborrecidos.

Outro dos pontos em que O REI LEÃO sucede extremamente bem são seus personagens coloridos, cuja atuação de ambos animadores e dubladores são impecáveis. Apesar de os atuais filmes de animação trazerem meia dúzia de nomes famosos em seus cartazes apenas para chamar mais espectadores aos cinemas (sim DreamWorks, estou olhando para você), o elenco estelar de O REI LEÃO contribui muito para a delineação de seus personagens. Talvez o maior sucesso deste elenco seja a escalação de Jeremy Irons para o vilão Scar, que com seu sotaque britânico cria um vilão não apenas ameaçador, mas com um perverso senso de humor. Outra atuação memorável é a de James Earl Jones (o próprio Darth Vader), que com sua grave e imponente voz dá ao rei Mufasa o perfeito senso de majestade. Talvez o único ponto fraco desse elenco esteja na voz do protagonista, o próprio Simba, interpretada por Matthew Broderick. O ator consegue interpretar bem os momentos de dúvida e indecisão, mas não consegue transparecer grande determinação em sua voz. Mas talvez este seja apenas o Simba afetado pelos eventos difíceis de sua vida, e não mais aquele que “mal pode esperar para ser rei”.

Para a produção do filme, uma parte da equipe de artistas visitou a África a fim de melhor representa-la no animado. Nunca tendo estado no lugar, não sei se os artistas foram totalmente fiéis em sua retratação, mas certamente posso afirmar que eles conseguem nos dar o perfeito senso do lugar. As majestosas savanas e imensas paisagens são mostradas com impressionante realismo, e cada cenário deve possuir até mais detalhes do que os verdadeiros locais. A direção de arte também tem a chance de se divertir – durante o número “I Just Can´t Wait to Be King”, por exemplo, a tela vira uma explosão de cores e o estilo realista dá lugar a um design estilizando replicando os padrões de obras e tecidos africanos. O imenso trabalho dos artistas transparece na tela a cada quadro, e O REI LEÃO é um dos filmes mais impressionantes visualmente já produzidos.

O sucesso de O REI LEÃO acabou sendo uma faca de dois gumes para os Estúdios Disney e para a indústria de animação como um todo. Sua bilheteria extraordinária mostrou de uma vez por todas que esse não era um gênero infantil, e sim que podia agradar a todas as idades. Também querendo suas fatias do bolo, outras empresas como Fox e Warner logo trataram de abrir suas divisões de animação. Os salários dos animadores inflaram como nunca havia acontecido antes, havendo até mesmo disputa de talentos entre as companhias. Em pouco tempo, diversos filmes animados lotavam os cinemas, mas ao contrário do O REI LEÃO, poucos alcançavam sucesso crítico e nenhum chegava aos resultados esperados nas bilheterias. Além disso, uma então novata no ramo da animação chamada Pixar estava lançando seus primeiros filmes, apresentando novos estilos de contar histórias e uma nova técnica de animação, arrebatando o sucesso financeiro e crítico tão almejado pelos outros estúdios.

Independente dos efeitos positivos ou negativos após seu lançamento, não é nenhum segredo as inúmeras qualidades que fazem de O REI LEÃO um dos maiores clássicos do estúdio. Mesmo depois de mais de uma década, o filme não perdeu nem um pouco de seu poder e valor de entretenimento. Este é um filme para se guardar para gerações futuras.

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