28/01/05 - 22h:49mDenunciar

MUITO MANEIRA!

VALE APENA LER!!! EU ME DIVERTI!



Epifania







Tóquio, 27 de Agosto de 1998







Como vai meu amigo, sei que há muito não nos falamos e que talvez pareça que não lhe guardo mais o apreço; contudo resolvi agora lhe mandar esta missiva. Para o que rezo tenha você esta certeza: mais vale a história do que as palavras que escrevo e os sentimentos que imprimo, e se possível for escolher entre coisas tão sem valor, perca ao menos alguns minutos comigo, pois acredito ter feito por merecer. Nem preciso lhe dizer que há 2 anos conheci a mulher de minha vida. Helena, você a conhece bem. Pois então, esta moça dotada da mais pura intenção de me fazer feliz, enfrentou com coragem os pais, que não podiam sequer sonhar em ter a filha envolvida com um pé rapado como eu, e talvez pelas dificuldades que lhe semeavam nosso amor vingou e a todos convenceu, inclusive o irascível Dr. Rui, pai de Helena. Este senhor conseguiu convencer-me que alguns insetos realmente vestem terno, não pela torpeza de seus atos, mas pela displicência com que trata os sentimentos alheios; chegando ao ponto de oferecer-me dinheiro para ficar longe de sua filha. Odeio este ser asqueroso mais que tudo no mundo, se é possível existir algo mais que tudo no mundo.



Mas, valendo-me de sua ajuda, querido amigo, o único empecilho capaz de separar-me de Helena foi vencido. Com suas sutilezas e argumentos tão bem formados conseguiu dobrar o bode velho a meu favor e, não demorou para que ele me aceitasse. Primeiro recebeu-me em sua casa e desculpou-se; depois deu-me um emprego de alta responsabilidade em sua empresa e finalmente concedeu-me a mão de helena. Casaríamos em 30 de agosto, no exato dia em que Helena completa 20 anos.



Veja você o quão engraçada se tornou esta novela. Eis que ao passo de 6 meses trabalhando arduamente notei algumas ações ilegítimas e - por que não lhe dizer - escusas por parte do filho do Dr. Rui. O jovem fedelho estava desviando muito dinheiro para contas na Suíça e pensava mesmo em levar à bancarrota toda a empresa apenas para satisfazer sua vontade mais fugaz. Tendo em min inesperadamente um aliado de confiança incumbiu-me de uma missão que jamais poderia imaginar. Ele fora designado pelo pai para ir até o Japão fechar um contrato milionário, do qual dependia todo o futuro da empresa, e vendo aí a chance magna de concretizar todo seu sonho, mandou-me em seu lugar. A coisa toda aconteceu rápido demais, deu-me muito dinheiro, procurações e recheou minha conta no banco; arquitetou um plano digno de um romance à Sidney Sheldon. Quando dei por min, já estava desembarcando no aeroporto de Tóquio . Foi ai que o destino (apelido grosso do casal Esperança e Sorte) pregou-me uma peça...









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No dia seguinte ao da minha chegada apressei-me em abrir uma conta e transferir todo o dinheiro para ela, na saída do banco fui muito cumprimentado pelo gerente que chegou até a me presentear com uma garrafa de saquê. No terceiro dia (e até então não havia saído do meu quarto senão quando fui ao banco) resolvi dar uma volta. Devido minha ignorância do idioma bem como dos sinais de trânsito, optei pelo metrô . No início consegui relaxar e apreciar o passeio, mas logo depois verifiquei que um milhão de japoneses tiveram a mesma idéia; e de pacato turista à sardinha enlatada bastaram duas estações. Fiquei tanto tempo preso no vagão que acabei indo e vindo diversas vezes.



Foi estão que eu a vi...



Entrou feito uma estrela na escuridão do vagão e como uma adaga em meu coração. Tinha uma luz radiante que a tornava singularmente diferente dos demais, a principio pensei estar sonhando e esfreguei as orbitas tentando destilar a visão. Minha lua vestia calça jeans e sapatinho preto de salto alto, uma camisa branca e só. Seu rosto permeava a fina linha entre a seiva imaculada e o pecado mortal, não usava nada que molestasse a pele, batom, ou pó qualquer. Os cabelos de fino trato, escorriam pelos ombros um vinho escuro de boa safra, bochechas rosadas e um narizinho de prumo quase que entalhado entre os olhos, os maiores que já vira até então em uma oriental. Não consegui despregar os olhos do anjo, que notando minha insistência retribuiu com um breve sorriso. Nesse momento minha hipnose foi tamanha que diante de tal visão possuiu-me a veia poética e, na certeza de que ninguém ao redor poderia entender o que dizia, declamei a minha Musa: "Deus todo poderoso não sou digno de tamanha dádiva, este anjo, esta musa, essa luz que irradia quando sorri. Sem a menor sombra de dúvida, esta é a mulher mais linda que eu já vi." . Ela estreitou os olhinhos, e eu me senti ridículo.



Ao perceber que ia-se para que não mais a visse, afligiu a urgência de um ato desesperado. Levantei-me quase ao mesmo tempo e tentei alcança-la. A multidão que se colocou no sentido contrário barrou-me o caminho e percebi que não conseguiria desembarcar, acudiu-me então a força de mil homens e parti com tamanha determinação e fé para meu objetivo que posso jurar: nem as portas se fechando, e nem que o próprio demônio tentasse me deter eu saberia o nome daquela mulher; minha vida dependia disso.



Um homem quando ama não é mais dono de si que do ar que respira. Um homem quando se apaixona perde todos os medos, passados e ainda aqueles que estão por vir. Torna-se senhor de seu mundo e de tudo na vida. Para esse homem o diabo sorri enquanto Deus lhe faz figa. E esse ser, possuído dessa maneira arremessa-se desesperado de encontro a mulher amada; nada pode detê-lo, vicia-lo, causar-lhe dor ou lamento. Um homem nesse estado, é Lúcifer encarnado, não convém entendê-lo.



Corri o mais que pude até que finalmente a encontrei no meio da multidão. Postei-me diante de seu corpo e para minha surpresa a jovem sequer notou minha presença, estava cabisbaixa (como é normal entre elas) e trombamos violentamente; segurei seu braço e falei,: "Eu sei que você não está entendendo nada do que eu digo, mas é que você é a mulher mais maravilhosa que eu já vi em toda minha vida e estou apaixonado, me diz seu nome, por favor!", ela virou as costas e foi embora.



Passei a noite enveredando pelos campos da solitude. Aquela Deusa oriental havia estilhaçado meu coração, e os cacos cortavam minha pele pelos lençóis . Durante toda a madrugada ensaiei frases em japonês utilizando o dicionário que comprara no avião. A reunião seria às dez horas.









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Na manhã seguinte não cometi o mesmo erro do dia anterior, tomei um táxi e cheguei meia hora mais cedo. Na sala de reunião estávamos eu e mais 2 senhores . Marcos havia me orientado minuciosamente, e meu trabalho era fácil: oferecer suborno a um tal Sr. Masato, o resto seguiria seu curso. Depois de 10 minutos naquele silêncio perturbador, saquei meu dicionário de bolso e tentei ser amigável. Mas de repente a sala se iluminou e a lua veio em minha direção. Mal podia acreditar que era ela, a mesma do dia anterior , tão linda como eu me lembrava, mais perfeita do que eu podia sonhar. Deu-me a mão e disse " Meu nome é Andréia e eu sou sua interprete", riu de minha surpresa e eu falei " Meu nome é Rubens, e eu sou um idiota." A reunião transcorreu como previsto e tudo ficou acertado, o tal Sr. Masato disse que queria dinheiro vivo e que sem ele tudo estaria desfeito; marcamos então novo encontro para dali 2 dias e neste meio tempo minha interprete gentilmente se ofereceu para mostrar os pontos turísticos da cidade. MEU DEUS, eu não merecia isso!!









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No dia seguinte acordei cedo, pois Andréa viria a meu encontro logo às 9 horas. Olhei-me no espelho e o que vi ali desenhado não era mais o mesmo que a muito me acostumara, era outro, apaixonado. O desejo tem um efeito incrível no ser humano , assemelha-se a uma droga maravilhosa. O homem acometido por ela experimenta um "não sei quê" de magnífico. O sorriso lhe acende, os cabelos sedenham, a pele vivifica, dos olhos brotam morangos e raios de luz banham todo seu corpo, assim como o sol: ilumina e aquece tudo ao redor. A paixão é exatamente o dobro de tudo isso!



Passeamos por diversos lugares exóticos, e o tempo todo que ficamos juntos mais e mais eu admirava esta mulher tão intrigante e atraente. No final da tarde, já bastante cansado, ela me convidou para conhecer um Ofurô. Imediatamente eu disse que não, que poderíamos ir para meu apartamento e ouvir algumas músicas e pedir comida chinesa pelo telefone ( homem apaixonado diz cada besteira!). Mas quando ela me explicou o que era um Ofurô, não tive dúvidas, " Vamos já!! ". Trata-se de uma piscina com água aquecida onde homens e mulheres se banham, isso mesmo meu amigo, todos juntos; a única divisão é uma corda para separar as alas masculina e feminina . Assim que chegamos ela foi para seu lado e eu para o meu. E neste momento eu comecei a acreditar que os japoneses conseguiam ler minha mente, pois como aconteceu no metrô, toda população de Tóquio estava lá. Sentei-me desajeitadamente espremido entre 2 elefantes lutadores de sumô. Desde meus tempos do exército não me sentia tão desconfortado entre tantos homens seminus , a única coisa que vestíamos era uma toalhinha de rosto na cintura. Tentei esquecer tudo - principalmente a água que de tão quente parecia estar minando diretamente do inferno - e fiquei admirando minha amada. Ela vestia a mesma coisa que eu e cobria sutilmente os seios com os cabelos, pensei com meus botões de toalhinha: "Se seu cabelo fosse mais curto não sei o que seria de mim agora". Em determinado momento olhou-me e apesar da forte sensação de ridículo - pois para me sentir um completo palhaço faltava apenas que a tenda do circo fosse armada - caminhei até a corda. Ela perguntou: " E então, está gostando?", e como que por encanto passou as mãos pelos cabelos desnudando o que eu mais temia , "Não... vou te esperar lá fora", e me apressei em sair - pois para me sentir um palhaço completo já não faltava mais nada . Quando saímos o clima havia mudado completamente, chovia muito e ela se apressou em me levar devolta para o hotel. Assim que chegamos não consegui mais me conter e cometi o maior dos erros, tentei beijar a lua !



Maldito impulso ocidental, ela esbofeteou minha cara eclipsando todo e qualquer desejo que tivesse, gritou impropérios sobre minha conduta lasciva , aludiu desde ensaios de Montaigne até os irmãos Green, disse adeus e foi embora para sempre... Castigou-me a chuva, castigou-me ainda mais a saudade; assim que cheguei no apartamento arranquei as roupas molhadas, abri o presente de saquê e mergulhei na cama. Não existe mais eficiente goma do que o álcool quando se trata de um coração partido.



Por volta de meia-noite pensei ter ouvido a campainha, e mal conseguindo carregar todo aquele saquê dentro de min, rastejei até a porta.



EPIFANIA!!



Amanheceu de repente, a lua invadiu meu apartamento e se já não tinha mais lágrimas de tristeza derramei lágrimas da mais pura e perfeita alegria, era Andréia!!



Estava completamente molhada pela chuva e tremia de frio. Corri para o banheiro tentando achar uma toalha para seca-la - devido a situação débil que me encontrava, demorei um pouco para voltar - e quando voltei quase tive um colapso diante da visão, Andréia já havia se livrado das roupas e parada, da mesma forma como a deixei segundos atrás, apenas tremia, e não era de frio. Ela não falou nada, caminhou suavemente pelo tapete até onde eu segurava a toalha, paralisado. Tomou os pomos de meu rosto entre as mãos e beijou-me a boca de forma tão carinhosa e sublime que o chão sumiu dos meus pés. Não pode haver entre um homem e uma mulher ato mais religioso e ao mesmo tempo mais erótico que o beijo. Desde o silêncio santificado que precede o ato até o abraço quente e excitado que crucifica os corpos na liturgia do desejo. A comunhão dos lábios, lubrificando a boca para receber a penetração da língua viril, até que a saliva benta batiza o pecado, sem ir além. Possuir a Amada, seu corpo, sua alma, amém.



Assim que seus lábios abandonaram os meus, toda minh’alma fora levada com eles e desmaiei aos pés do meu amor.









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Da realidade ao sono do sono ao sonho; mil estrelas cor de mel pululam, querubins blasfemam aromas indeléveis, caminho por uma estrada do mais puro carrara, no seu final está o jardim do éden, o paraíso. No seu final está Andréia .







Acordo lento, e percebo que estou na cama. Deitada a meu lado minha amada. Sequer passou-me pela cabeça o que poderia ter acontecido, eu não perguntei nada e ela me respondeu tudo com um simples olhar: O amor perfeito encalacrado em seus olhos que a cada "flape" das asas pálpebras como cadafalso armado me decapitavam um pouco, até que finalmente perdi a cabeça por completo e atraquei-me a seu corpo. Ela apertou os olhinhos silvando um gemido doce e empurrou-me os pulsos. Fiquei aturdido com o ato pensando ter causado algum mal. Mas a Deusa, complacente da minha ignorância, tomou uma de minhas mãos entre as suas, encolheu-se toda e encaixou-se em meu peito tal qual um bebê em busca do seio de sua mãe. Meus desejos mais absolutos de amor e erotismo não estavam preparados para isso. Queria beija-la, lambe-la, morder e chupar... só fiz respirar, e tamanha foi a sensação de paz e prazer que experimentei , que posso lhe afirmar, querido amigo: nada neste mundo pode ser mais maravilhoso.







NADA !









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Me perdoe, acabei por estender demais a história, e desviei-me do verdadeiro propósito desta carta, é que não caibo em mim de tanta felicidade.



Quando terminar de ler já estarei muito longe e nunca mais terá noticiais minhas. Assim sendo despeço-me: à seu pai diga para não se preocupar, jamais voltarei a importunar Helena (afinal ele me pagou muito bem por isso) ; à sua irmã, a única verdadeiramente inocente em toda essa história diga... feliz aniversário; e a você, meu mais querido amigo, agradeço toda a confiança (e dinheiro) que depositou em mim; infelizmente não foi possível fazer negócio com o Sr. Masato, perdoe-me.



Adeus...







P.S.: Não vou lhe devolver o dinheiro.





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