10/07/05 - 19h:12mDenunciar

A PÁGINA NEGRA DO CRISTIANISMO

TIPO TEXTO GRANDE MAIS MUITO MASSA CURTI MUITO TIPO FIZ UM OUTRO FLOGAO TIPO VAOM LA MIM FAZER UMA VISITA E NAO ESQUECA TIPO O COMENTARIO.











2000 ANOS DE CRIMES, TERROR E REPRESSÃO

Enrico Riboni







"Acreditar num deus cruel, faz um homem cruel."

Thomas Paine

Prefácio



Há cerca de 2000 anos, nascia na Galiléia um fundador de seita, que acabaria crucificado uns trinta anos mais tarde. Algumas de suas últimas palavras na cruz foram "Dêem-me de beber". E só. A seita que ele tinha fundado tornar-se-ia, com o passar dos anos, a maior de todos os tempos. Ela tomará o poder político dentro do Império Romano, abolirá a liberdade de religião, depois ajuntará montanhas de cadáveres: os seus membros massacrarão milhões de "infiéis", "hereges", "feiticeiras" e outros, depois se matarão entre eles próprios, levando a Europa às guerras mais ferozes que ela conheceu. Um passado destes poderia incitar à modéstia, mas os cristãos reivindicam, pelo contrário, o monopólio da ética. Proclamam que adoram o Deus único, que Deus é "amor", e se consideram melhores que o resto da humanidade.



Única ideologia capaz de dividir com o comunismo e o nazismo o pódio dedicado às ideologias mais mortíferas da história humana, o cristianismo mantém-se uma ideologia dominante em muitos países

ocidentais, como o "gendarme do mundo", os EUA. Chegou a hora de abrir o "Livro Negro do Cristianismo: 2000 anos de terror, perseguições e repressão", que resume algumas das piores atrocidades cometidas em nome dessa ideologia que pretende promover o amor ao próximo.



Ano um



"Os deuses não estavam mais, e Deus não estava ainda."

O Império Romano garantia a liberdade de culto. O ateísmo e a razão dominavam. É nessa época que nasce um sujeito que, segundo dizem certos judeus, perdeu o juízo porque leu o Tora demasiadamente jovem. Ele funda uma seita que visa proibir o culto dos outros deuses, exceto o seu. O sujeito é finalmente morto, mas a seita se expande com o êxito que se conhece.



O culto da personalidade do fundador da seita atinge, nos cristãos, um nível que mesmo o estalinismo não conseguirá igualar: o fundador é proclamado "verdadeiro homem e verdadeiro Deus" ("Deus-Homem", em linguagem comum). Os que duvidam disso são proclamados imediatamente hereges, e sofrerão mais tarde os raios da Inquisição. A partir do século IV da nossa era, começará o assassinato dos não-crentes pelos cristãos.



Anos 50-70



A seita cristã se desenvolve. Textos gregos, escritos por membros da seita fora da Palestina ("Os evangelhos") relatam a vida do fundador: nascido de uma virgem, que se manterá virgem mesmo tendo vários outros filhos, ele terá sarado doentes, mas também amaldiçoa uma figueira que fica instantaneamente seca, e fará precipitar num lago centenas de porcos que lhe não pertenciam.1 Este personagem, que defende os pobres

mas também afirma que "aqueles que têm tudo serão louvados, e àqueles que nada têm, o pouco que têm ser-lhe-á retirado", um pouco patético quando amaldiçoa uma figueira ou se deixa crucificar, é declarado a encarnação do "Deus único". O fato de, segundo os evangelhos "canônicos", as suas últimas palavras sobre a cruz terem sido "Dai-me de beber" não parece perturbar os adeptos da seita, que se expande por todo o Império.



A intolerância religiosa dos cristãos, que visam abertamente, desde o início, impor uma interdição aos cultos de deuses que não o seu, o qual eles insistem ser o "único Deus", começa logo a atrair a atenção da justiça romana, que defende a liberdade de culto, a qual é um dos pilares dessa sociedade complexa e multicultural que é o Império Romano dos primeiros séculos da nossa era. A propaganda cristã inverte habilmente a situação. Os condenados pela justiça romana são declarados "mártires" e os seus restos são venerados nas igrejas, inventando-se a lenda de eles terem sido executados por terem "recusado a renegar a fé", desculpa essa bem melhor do que a verdade nua, que mostra que foram condenados por desordem e imposição da intolerância religiosa na sociedade multicultural.



Ano 312



Tomada do poder pelos cristãos. No fim de uma guerra civil,

Constantino toma o poder. Pouco depois, ele se converte oficialmente ao Cristianismo, e "autoriza", num primeiro tempo, o culto do deus único cristão, pelo Édito de Milão: é o início da perseguição religiosa na Europa. Pouco a pouco, o culto dos outros deuses, exceto o deus cristão, vai sendo proibido. Os santuários clássicos serão destruídos ou transformados em igrejas cristãs. Ao fim do século IV, não haverá mais nenhum templo pagão em toda a bacia do Mediterrâneo.



Ano de 380



O imperador Teodósio proclama oficialmente o Cristianismo a única

"Religião do Estado". Mas ainda será necessário esperar mais 12 anos para que todos os outros cultos sejam definitivamente proibidos.



Ano de 389



Teófilo, hoje São Teófilo, é nomeado patriarca de Alexandria e inicia imediatamente uma violenta campanha de destruição de todos os templos e santuários não-cristãos. Tem o apoio do pio imperador Teodósio. Deve-se a Teófilo a destruição, em Alexandria, dos templos de Mitríade e de Dionísio. Essa loucura destruidora culmina em 391 com a destruição do templo de Serapis e da sua biblioteca. As pedras dos santuários destruídos serão usadas para edificar igrejas para a nova religião única, a cristã.



Em seguida e para demonstrar que ele é capaz de perseguir também

cristãos (na medida em que eles não sejam 100% ortodoxos), Teófilo comanda pessoalmente as tropas que atacam e destroem os mosteiros que aderiram às idéias de Orígeno, um teólogo cristão que foi declarado herege porque afirmava que Deus era puramente imaterial.



Ano de 389



Pela primeira vez, um chefe cristão dita a um imperador a política a ser seguida: Santo Ambrósio de Milão levanta-se em plena catedral e, com o sentido de caridade tão particular aos cristãos, impõe que o imperador anule a ordem que dera ao bispo de Calinicum, sobre o Eufrates, para que reconstruísse uma sinagoga que ele e a sua congregação tinham destruído. A Igreja toma partido assim, desde o princípio, dos incendiários de sinagogas, posição que continuará a manter até o ano de 1940.



Início dos anos 390



O piedoso imperador cristão Teodósio interdita progressivamente todos os cultos não cristãos. Pouco a pouco, os templos não cristãos são fechados ao culto, as procissões "pagãs" são proibidas. Esta supressão da liberdade de religião, em proveito exclusivo do Cristianismo, causa por vezes revoltas, como a de 408, em Calama, na Numídia. É nessa época que acontecem na Germânia as primeiras execuções de hereges, uma bela tradição que a Igreja desenvolverá com a Inquisição e perpetuará até 1826.



Ano de 391



Uma multidão de cristãos, guiados por Santo Atanásio e São Teófilo, deitam abaixo o templo e a enorme estátua de Serapis, em Alexandria, duas obras-primas da Antigüidade. A coleção de literatura do templo também é igualmente destruída.



Ano de 412



Cirilo, hoje São Cirilo, doutor da Igreja, é nomeado bispo de

Alexandria e sucede a seu tio Teófilo. Excita os sentimentos

anti-semitas difundidos entre os cristãos da cidade e, à frente de uma

multidão de cristãos, incendeia as sinagogas da cidade e faz fugir os

judeus. Em seguida, encoraja os cristãos a tomar os bens dos

fugitivos, deixados para trás.



Ano de 415



Hepatia, a última grande matemática da Escola de Alexandria, filha de

Theon de Alexandria, é assassinada por uma multidão de monges

cristãos, incitados por Cirilo, patriarca de Alexandria, que será

depois canonizado pela Igreja. O motivo dessa ação foi que a brilhante

professora de Matemática, representava uma ameaça para a difusão do

cristianismo, pela sua defesa da Ciência e do Neoplatonismo. O fato

dela ser mulher, muito bela e carismática, fazia a sua existência

ainda mais intolerável aos olhos dos cristãos. A sua morte marcou uma

reviravolta: após o seu assassinato, numerosos pesquisadores e

filósofos trocaram Alexandria pela Índia e pela Pérsia, e Alexandria

deixou de ser o grande centro de ensino das ciências do mundo antigo.

Além do mais, a ciência retrocederá no Ocidente e não atingirá de novo

um nível comparável ao da Alexandria antiga senão no início da

Revolução Industrial. Os trabalhos da Escola de Alexandria sobre

Matemática, Física e Astronomia serão preservados, em parte, pelos

árabes, persas, indianos e também chineses. O Ocidente, pelo seu lado,

mergulha no obscurantismo, do qual começará a sair mais de um milênio

depois. Em reconhecimento aos seus méritos de perseguidor da

comunidade científica e dos judeus de Alexandria, Cirilo será

canonizado e promovido a "Doutor da Igreja", em 1882.



Séculos V a XV



A "Idade Média Cristã". Aproveitando o desaparecimento das grandes

bibliotecas romanas e na ausência quase total da atividade editorial

na Europa, a igreja obtém, de fato, um monopólio sobre o conjunto da

escrita e da informação. O povo é deixado propositadamente na

ignorância, a leitura da Bíblia é desencorajada mesmo no caso de se

ter acesso a um exemplar. Pouco a pouco, a igreja impõe o seu domínio

sobre a sociedade. A Inquisição, o celibato dos padres2, o caráter

obrigatório de casamento antes de qualquer relação sexual são todas

instituições que datam dessa época. É também nessa época que se

desenvolve o que se tornará uma das mais ricas tradições cristãs:

queimar pessoas vivas. Cerca de um milhão de "bruxos" serão torrados

durante a Idade Média. As cidades concorrerão para tentar bater

recordes de quantidade de bruxos queimados por ano. Um recorde

imbatido foi estabelecido pela cidade de Bamberg, sede do episcopado,

que conseguiu assar 600 feiticeiros num só ano.



Um grande número de membros da Igreja atual ainda lamenta o fim dessa

época, quando a Igreja dominava totalmente a vida social. Religiosos

(e outros) cristãos lembram com saudade a "espiritualidade" da época,

a arte que deu grande ênfase à morte - assunto que sempre apaixonou os

cristãos - , e a música envolvente.



Ano de 804



O imperador cristão Carlos Magno converte grande número de saxões,

propondo-lhes a seguinte escolha: converterem-se ao catolicismo ou

serem decapitados. Vários milhares de cabeças caem, com a bênção da

Igreja: os sacerdotes presentes participam da jogada do imperador.



Século IX



Cisma do Oriente. O patriarca de Constantinopla pretende que se

utilize o pão com levedura para a Eucaristia. O papa, bispo de Roma,

afirma que se deve usar pão sem levedura. Com base neste problema de

capital importância, a cristandade se divide, e os dois patriarcas, de

Roma e de Constantinopla, excomungam-se mutuamente. O Cisma vai

provocar mortes até os anos 90 (guerras nos Bálcãs, ex-Iugoslávia, de

católicos contra ortodoxos).



Ano de 1182



Os "pogroms" latinos de Constantinopla. Na cidade do piedoso patriarca

que come pão levedado, estabeleceu-se, desde o início de século XII,

uma colônia de mercadores "latinos", essencialmente originários de

Veneza, Gênova, Pisa e Amalfi. Mas essas pessoas têm tudo para

desagradar aos prelados ortodoxos: além de utilizarem o pão sem

levedura para a Eucaristia, fazem o sinal da cruz no sentido errado,

da esquerda para a direita e não da direita para a esquerda! Os popes

excitam a populaça e enfim, nos dias radiosos de maio de 1182, a

multidão guiada pelos popes pegam os latinos: vários milhares deles,

homens, mulheres e crianças são trucidados.



Séculos XI e XII



Em face do crescimento da população da Europa, a Igreja propõe um

método de controle populacional "natural": as Cruzadas. O apelo às

Cruzadas foi lançado em 1095. Em 1099, Jerusalém é "libertada": logo

que as tropas cruzadas entraram na cidade, o governador muçulmano

rendeu-se sob a promessa da população civil ser poupada. Claro, a

totalidade da população (que compreende essencialmente judeus e

muçulmanos) é passada pelas armas nas horas seguintes, mas com o

cuidado de antes violentar todas as mulheres e decapitar as crianças.

Estima-se em 70.000 o número de civis massacrados. A última fase do

massacre passa-se nas sinagogas e mesquitas da cidade, onde os

habitantes aterrorizados se refugiaram: pensam que o caráter religioso

dos locais possam inspirar os piedosos cruzados à clemência. Nada

disso acontece: os cruzados entram e transformam os locais de culto em

vastas carnificinas. O massacre de milhares de civis amontoados na

grande mesquita da esplanada do templo dura várias horas. "Tudo o que

respira" na cidade foi morto, informam com orgulho os comandantes dos

cruzados.



Ano de 1204



A 4a Cruzada fez uma parada em Constantinopla, na época a maior cidade

cristã. Mas os cristãos sabem fazer entre eles o que fazem aos outros:

durante três dias, Constantinopla foi posta a saque, com uma orgia de

violências indescritíveis.



Anos de 1208 a 1244



Cruzada dos Albigenses: por iniciativa do Papa Inocêncio III, uma

Cruzada é preparada.

Em 1209, como alguns "hereges" se haviam misturado com a população de

Beziers, o duque Simon de Monfort deu uma ordem que lhe assegurou a

posteridade: "Matem-nos todos, Deus reconhecerá os seus". Toda a

população, homens, mulheres e crianças são passados pelas armas. A

Provence e a região de Toulouse ficam muito despovoadas após essa

guerra, que é dirigida contra a população civil com uma ferocidade sem

precedentes desde as invasões bárbaras.



Anos de 1226 a 1270



Luís IX, rei da França. Finalmente um católico, de reputação piedosa e

íntegra, acede à coroa da França. A Igreja o canoniza em 1290, em

reconhecimento a seus méritos que ninguém duvida serem excepcionais.

De fato, durante o seu reinado, São Luís lança duas Cruzadas, que

terminam ambas de modo catastrófico: pouco importa, é a intenção (de

matar e de pilhar) que conta, aos olhos da misericordiosa Igreja

Católica! No plano interno, São Luís3 faz com que a justiça puna de

modo sistemático os blasfemadores: são postos nos pelourinhos e têm as

suas línguas atravessadas por ferros em brasa.



Ano de 1231



Fundação da Inquisição. O Santo Ofício, durante toda a sua história,

queimou mais de um milhão de pessoas, essencialmente hereges, judeus e

muçulmanos convertidos e também os "bruxos". A última feiticeira será

queimada em 1788. O último "herege" chegará à sua vez em 1826. A

Inquisição e os seus imitadores protestantes queimam também médicos e

cientistas, desde que haja uma oportunidade.



A Igreja nunca se arrependeu dos atos da Inquisição e até garantiu a

continuidade histórica da instituição até os nossos dias, limitando-se

apenas a mudar-lhe o nome: será necessário esperar que Pio X, em 1906,

faça com que o "Santo Ofício da Inquisição" seja renomeado como "Santo

Ofício", e, em 1965, seja rebatizado como "Congregação para a doutrina

da fé". Enfim, em 1997, o papa abre os arquivos do Santo Ofício, e

historiadores escolhidos a dedo, são autorizados a fazer pesquisas. As

estimativas do número total de vítimas da Inquisição são então

revistas, havendo um consenso que roda hoje em torno de um milhão de

pessoas executadas, ao qual é necessário acrescentar as inúmeras

pessoas torturadas e com todos os seus bens apreendidos.



Ano de 1251



O Papa Inocêncio IV autoriza, enfim, a Inquisição a praticar a

tortura. A obtenção das confissões de culpa é grandemente facilitada.

A Inquisição pode aplicar, com base em confissões arrancadas através

de tortura, penas indo de uma simples oração ou dum jejum até à

confiscação dos bens e mesmo prisão perpétua. Mas ela não pode

condenar à morte. Com a sutileza característica da Igreja Católica, a

Inquisição podia "passar" um herege para a justiça comum, que o levará

à morte na fogueira, com base na confissão obtida pela Igreja, mesmo

com tortura. Essa sutilidade permitirá à Igreja afirmar que ela nunca

matou ninguém...



Anos 1347 a 1354



Em toda a Europa reina a Morte Negra, a primeira grande epidemia de

peste no continente. Os prelados católicos logo descobriram os

culpados: os judeus teriam envenenado os poços de água. Esse boato

espalha-se por toda a Europa e inúmeros "pogroms" acontecem. Na

Alemanha, contam-se 350 comunidades judias totalmente destruídas pelos

"pogroms", nesse período. Na Itália, em Milão, as autoridades civis e

eclesiásticas, depois de terem executado no braseiro os "untori"

judeus, inauguraram uma coluna comemorativa para lembrar o seu feito.

Essa coluna passou à História com o nome de "Coluna Infame", quando,

no século XIX , o romancista Manzoni teve, em primeira mão, a coragem

de denunciar esse monumento à perversão religiosa.



Ano de 1483



Tomás de Torquemada é nomeado Grande Inquisidor de Castela. Esse monge

dominicano4 faz uma ampla utilização da tortura e da confiscação dos

bens das vítimas. Estima-se em 20.000 o número de pessoas queimadas

durante o seu mandato.



Ano de 1487



Dois monges dominicanos alemães, James Sprenger e Heinrich Kramer

publicam o "Malleus Maleficarum": trata-se dum espesso volume de 400

páginas que é um guia (claro que aprovado pela hierarquia católica) de

caça às bruxas. Lá pode-se aprender a identificá-las (por exemplo, se

uma mulher acariciar um gato preto e a centenas de metros alguém se

sentir mal, etc.), a torturá-las para fazê-las confessar, e como os

inquisidores podem absolver-se mutuamente, depois de uma sessão de

tortura. A obra afirma também que negar a existência da feitiçaria é

uma heresia muito grave, passível de morte na fogueira. Durante dois

séculos e meio, na Alemanha, depois da publicação do Malleus

Maleficarum, negar a bruxaria podia levar ao braseiro. O manual foi um

"best-seller"...



Ano de 1492



O rei "muito católico" e a rainha "muito católica" (títulos dados pelo

papa em pessoa!) da Espanha expulsam os judeus. Eles podem escolher a

conversão, para então poderem ser justiçados pela Inquisição (que

queimará grande número deles) ou partir. Mais de 160.000 judeus saíram

da Espanha. A hierarquia católica não fica indiferente a essa medida,

de uma crueldade assustadora: ela aprova a medida, e o papa encoraja

os outros soberanos europeus a se inspirarem no exemplo espanhol. Em

toda a Europa, os padres católicos se mobilizam para obrigar os

governos a proibir a entrada dos judeus expulsos.



Os judeus que escolheram a conversão são perseguidos pela Inquisição

com uma impressionante determinação: até o século XVIII, far-se-á o

"teste da banha de porco" com os judeus convertidos e seus

descendentes: uma salada com pedaços de carne e banha de porco é

apresentada ao "convertido". Se for notado que ele não comeu a carne

suína, será queimado como "falso convertido". Esse método será também

aplicado aos muçulmanos e seus descendentes.



Se a expulsão dos judeus da Espanha foi a maior do gênero registrada

na História, não foi a primeira. Na França, os prelados católicos

tinham já conseguido a expulsão dos judeus em 1306, e que foi logo

revogada, antes de ser confirmada em 1394. A Inglaterra já tinha

procedido à expulsão em 1290. Em 1496, Portugal imita o seu poderoso

vizinho, expulsando também os judeus.



Ano de 1493



O primeiro índio da América no paraíso. Quando Cristóvão Colombo, que

teve o cuidado de levar um monge nas bagagens, chega à América, ele

encontra os índios que ele descreverá como gente amigável e solícita.

Prende 12 deles e os leva para a Espanha. À chegada, um deles fica

doente: antes da sua morte, é batizado rapidamente, o que permite a

corte dos muito católicos reis exultar, porque um indígena do Novo

Mundo acabava de entrar no paraíso cristão. Esta triste história

marcará o início da trágica cristianização dos índios americanos, onde

os episódios dos redutos do Paraguai e as perseguições aos índios

Pueblo serão alguns dos mais trágicos.



Ano de 1499



Acontece neste ano o maior "auto da fé" que a História registra. Em um

só auto de fé, o inquisidor Diego Rodrigues Lucero queima vivos nada

menos que 107 judeus convertidos ao cristianismo, em Córdova.



Século XVI



O drama dos castrados. A Igreja, que tinha proibido que mulheres

cantassem no coral das igrejas, enfrenta um problema trágico: como não

torturar os ouvidos dos piedosos prelados de Cristo, privando-os das

vozes sopranas, tão importantes nos coros para louvar o amor a Deus?

Uma solução bárbara é encontrada: castrar jovens meninos cuja voz

tenha sido considerada bela. Nos corais da Santa Igreja Católica não

faltarão assim nunca os sopranos e contraltos...



Esta prática bárbara só terminará em 1878, por ordem do Papa Leão

XIII. Mas é mantida ainda durante o século XIX, ao ponto de Rossini,

quando ele compôs a "Pequena Missa Solene", escrever, com

naturalidade, que serão suficientes, para executá-la, "um piano e uma

dúzia de cantores dos três sexos, homens, mulheres e castrados".



Ano de 1506



"Pogrom" de Lisboa: 3000 judeus são trucidados pelos piedosos

católicos, incitados pelos prelados.



Século XVI



Júlio II della Rovere, papa. Hábil chefe militar, ele veste uma

armadura durante a missa, quando um monge insolente lhe diz que o

traje não é conveniente. "Quando se trata de conquistar terras, Deus

não faz questão do traje, mas da fé do seu servidor", responde-lhe,

passando assim à História. Deus lhe permitiu, de fato, conquistar a

cidade de Bolonha, que foi, como deveria, posta a saque.



Ano de 1521



Inspirado pelo Espírito Santo, que aparentemente não tinha o que

fazer, um monge alemão, Martin Luther, traduz do latim o "Novo

Testamento", em algumas semanas. O Diabo acaba de o tentar: Lutero não

encontra coisa melhor a fazer do que lançar sobre ele um tinteiro, que

suja a parede. Essa mancha está religiosamente preservada para os

turistas do castelo de Wartburg.



O acontecimento pareceria insignificante. Mas não é, pois ele inaugura

o maior cisma da cristandade: durante os séculos seguintes, os

cristãos vão-se massacrar mutuamente ainda com mais entusiasmo do que

quando eles matavam e queimavam os não-cristãos, os hereges, as

bruxas, os judeus e muçulmanos convertidos etc.



Lutero escreverá e dirá diversas vezes que era necessário queimar as

sinagogas e escorraçar os judeus das cidades: ele se situa assim

dentro da tradição dos pais da Igreja Católica, e que será mantida até

o século XIX pela Inquisição e depois, no século XX, pelos camisas

castanhas (seguidores de Mussolini).



Ano de 1527



Saque de Roma. Os soldados protestantes massacram a totalidade da

população de Roma, umas 40.000 almas, e pilham a cidade. O papa é

salvo pelos guardas suíços. Ele se fecha com eles no Castelo de Santo

Ângelo, enquanto a população é massacrada. Ele passou um grande medo.

Os suíços ganham assim uma fama profissional no estrangeiro, o que se

perpetua até hoje.



Ano de 1553



Calvino, que condena os excessos da Igreja Católica, faz decapitar o

livre-pensador e médico Michel Servet, que havia descoberto a

circulação sanguínea. Esse é somente um dos 15 hereges que o

reformador fez executar durante a sua ditadura sobre Genebra.



Calvino tem um papel muito ativo na prisão e depois na condenação à

morte de Michel Servet. Primeiro, ele troca correspondência com ele, e

depois que o médico, fugindo da Inquisição, chega a Genebra, manda-o

prender. Calvino havia dito a seu amigo, o reformador Farel, que, se

Servet entrasse em Genebra, de lá não sairia vivo. Ele manteve a sua

promessa e interveio pessoalmente no julgamento pedindo a sua

execução. A única clemência dada a Servet foi a de decapitá-lo em vez

de queimá-lo vivo.



Ano de 1571



A invenção da imprensa permite que um número crescente de pessoas se

informe. A Igreja reage criando o Index (Index Additus Librorum

Prohibitorum): essa instituição editava regularmente a lista dos

livros proibidos. A última edição do Index foi publicada em 1961.



Anos de 1566 a 1572



Pio V, papa. Este santo da igreja católica vangloria-se publicamente

diversas vezes de ter, durante a sua carreira de inquisidor, colocado

fogo com suas próprias mãos em mais de 100 fogueiras de hereges que

ele mesmo acusara, confundira e condenara.



Publica também uma nova edição do catecismo oficial da igreja, no qual

o amor ao próximo e a misericórdia ocupam um lugar importante.



Anos de 1547 a 1593



Guerras de religião na França. As sub-seitas cristãs entregam-se a uma

guerra civil sem perdão, interrompida por diversas pazes e tréguas

temporárias. Durante uma delas, ocorreu o massacre de 20.000

protestantes, homens, mulheres e crianças, em uma só noite, a

tristemente célebre Noite de São Bartolomeu (1572).



Fim do século XVI até ao início do século XVIII



Conversão forçada dos índios Pueblo. Subindo pela costa do golfo do

México, os exploradores espanhóis, sempre acompanhados de monges e

padres, entram em contato com a tribo dos Pueblo, no território que

hoje pertence ao estado americano do Novo México: diferentes dos

índios nômades das planícies do Norte e de outros indígenas mais

combativos que os espanhóis encontraram no México e na América do Sul, os índios Pueblo vivem em aldeias (los pueblos) de casas de tijolos com 2 ou 3 andares, são pacíficos e praticam a agricultura. Seguem uma religião na qual se venera o "Pai do Céu" e a "Terra Mãe", temem os demônios (os Skinnwalkers) que andam pela crista das montanhas ao pôr do sol, veneram os corvos como reencarnação dos seus antepassados. Eles têm também um rico templo de deuses semelhantes aos dos gregos, sendo o seu deus principal a mulher-aranha. As cerimônias são celebradas em pequenas igrejas familiares, as Kivas. Estes pacíficos

agricultores logo se tornam o objeto das atenções dos padres

espanhóis, impacientes por substituir o culto ao Pai Céu e à Mãe Terra

por aquele de cujo deus se bebe o sangue durante as cerimônias: os

pajés índios são acusados de bruxaria e executados. As Kivas são

destruídas pelos militares hispânicos. Os cultos religiosos

tradicionais são proibidos, sob pena de mutilação. Índios

surpreendidos a celebrar uma cerimônia tradicional terão um braço ou um pé cortados. Apesar disso tudo, alguns índios continuarão a fazer os seus cultos, em segredo e à noite. Os padres católicos usarão esse fato nos seus sermões e que os índios ainda hoje citam com amargura: os padres diziam que a religião dos índios era a das trevas, pois era sempre à noite, enquanto que o cristianismo era a religião da luz, pois se come a carne e se bebe o sangue do deus cristão em pleno dia... Diversas revoltas sangrentas pontuam a cristianização dos

Pueblo. Essa perseguição religiosa só cessará depois da anexação do

território pelos EUA, em 1847.



Ano de 1600



Giordano Bruno é queimado vivo em Roma, condenado por heresia. Ele

havia ousado definir o Universo como infinito e admitido a hipótese da

existência de formas de vida fora da Terra. Era demais para a Igreja.

Depois de 8 anos de processo, durante o qual lhe são arrancadas

confissões, sob tortura, ele é condenado à morte como "herege

obstinado e ímpio". Ele se defende tentando mostrar que as suas idéias não estão em contradição com as doutrinas cristãs, mas em vão. Ele foi queimado vivo, em público, em Roma, no Campo dei Fiori. Tiveram o cuidado de lhe cortar a língua antes de o enviar ao local da execução, para evitar todo o risco de que as suas palavras não emocionassem a multidão que veio assistir ao espetáculo. O seu principal acusador, o

cardeal Bellarmino, será mais tarde canonizado e, em 1930, proclamado "Doutor da Igreja".



É interessante notar que, se, no caso de Galileu, a Igreja Católica

expressou o seu arrependimento no fim do século XX, com a sua

reabilitação em 1992, nunca se arrependerá da execução de Bruno. Pelo

contrário, ela se opôs com veemência à instalação de uma estátua de

Giordano Bruno, em 1889. Em 1929, o papa pediu a Mussolini que

destruísse essa estátua, antes de canonizar e depois nomear "Doutor da

igreja" o cardeal Roberto Bellarmino, acusador de Giordano Bruno.



Ano de 1609



Expulsão dos mouros da Espanha. Depois da expulsão dos judeus da

Espanha, a Inquisição se aborrecia um pouco nesse belo país. Lança então a caça aos "morescos", os árabes convertidos ao cristianismo. Há a suspeita de serem falsos convertidos e são executados todos os que se recusam a beber vinho ou comer carne de porco, ou que sejam limpos demais. Com efeito, o Islamismo, contrariamente ao Cristianismo, prescreve lavagens periódicas. A higiene nunca foi tão perigosa como no século XVI na Espanha! Enfim, em 1609, temendo talvez ter deixado passar alguns falsos convertidos, a Inquisição consegue do rei a expulsão dos "morescos" para o Norte da África. O número dos expulsos

é mal conhecido: as estimativas variam entre 300.000 e 3.000.000. Os expulsos chegam a terras islâmicas, onde o Corão prevê a pena de morte para os que renegaram Maomé...



Ano de 1633



Processo de Galileu. Por ter duvidado da teoria geocêntrica de

Ptolomeu (que diga-se de passagem não era cristão), Galileo Galilei é obrigado a se retratar: são-lhe mostrados os instrumentos de tortura que seriam usados se ele insistisse. O processo de Galileu só foi reaberto para revisão pelo Papa João Paulo II, e Galileu é reabilitado em 1992.



As suas obras já tinham sido colocadas no Index em 1616. Passará o resto da sua vida confinado na sua casa (prisão domiciliar). Foi a sua reputação internacional de cientista que lhe evitou consequências mais graves.



Anos de 1618 a 1648



Guerra dos 30 anos. Os muito católicos reis de Habsbourg forçam a

conversão dos seus súditos protestantes da Boêmia, iniciando a maior

guerra que o continente europeu conheceu. A população da Alemanha é

reduzida à metade. Numerosas cidades são devastadas. Epidemias de

peste assolam toda a Europa Central, desde a Lombardia até a Prússia.



Trata-se realmente de uma guerra religiosa, embora as igrejas tenham tentado fazer crer que se tratava de um conflito político: a guerra iniciou-se por conflitos religiosos e pela ação de reis estrangeiros, como Gustavo II da Suécia, que intervieram por razões de convicção religiosa. O caso de Gustavo II é particularmente significativo, pois obrigava os seus soldados a cantar canções religiosas todas as noites,

embora eles fossem uns terríveis saqueadores. O exército sueco ganhou o título de "Schrecken des Krieges", pela população alemã, que teme a pilhagem dos suecos ainda mais do que as feitas pelos exércitos dos Habsbourg.



Segunda metade do séc. XVIII



O assunto das reduções do Paraguai. Este caso é particularmente

interessante, pois aqui os católicos se massacram e se excomungam

entre eles. Os jesuítas haviam estabelecido no Paraguai um pequeno

império particular feito de reduções (redutos), ou seja, pequenas

aldeias fortificadas na floresta, onde viviam os índios convertidos ao

Cristianismo, mas uma correção das fronteiras coloca alguns desses

redutos em território português. Ora, Portugal, país católico e

cristão, mantém na época a tradição da escravatura: os portugueses

pensam então roubar aos jesuítas os índios para depois vendê-los como

escravos.



O papa intervém, excomunga os jesuítas das reduções. Depois, um

exército, com os canhões e espadas benzidas pelos padres de serviço,

ataca as reduções, massacra os jesuítas e toma os índios como

escravos. Um "Te Deum" solene celebra a vitória, como deve.



Pouco depois, o papa interdita a Ordem dos Jesuítas, culpada de ser

muito inteligente e racional, e sobretudo de não ter servido com

lealdade à família de Bourbon, reis da França e da Espanha, monarcas

absolutos e grandes amigos da Igreja Católica.



Ano de 1766



Em pleno século das luzes, um jovem de 19 anos, o Cavaleiro de la

Barre, passa "a vinte passos de uma procissão, sem tirar o chapéu". É

preso e torturado. Finalmente é decapitado depois de lhe terem cortado

a língua. O seu corpo é depois colocado sobre uma fogueira e queimado

junto com um exemplar do Dicionário Filosófico de Voltaire, diante de

uma multidão entusiasmada.



Ano de 1788



No Cantão de Glaris, na Suíça, a última bruxa foi queimada.



Esta execução da Inquisição não foi a última, e continuará queimando

hereges até 1826.



Ano de 1793



Kant, professor de Filosofia em Königsberg e estrela internacional da

filosofia moderna, depois da publicação da "Crítica da Razão Pura",

publica "A Religião nos Limites da Razão", onde ele coloca as

doutrinas cristãs à prova do raciocínio e do "imperativo categórico".

É demais para os piedosos reis da Prússia, que, empurrados pelos

prelados protestantes, intervêm, e Kant é forçado a retratar-se

publicamente, sob pena de perder imediatamente o seu posto na

Universidade de Königsberg. Todos os professores universitários são obrigados a assinar, sob pena de dispensa imediata, um documento onde prometem não citar os ensinamentos de Kant com relação à religião. Como no caso de Galileu, a fama internacional de Kant o salva de consequências mais severas. Kant ainda pensa em se exilar, mas, neste fim de século, há poucos céus clementes para pensadores que ousaram

criticar aspectos da ideologia cristã. Assim acabará os seus dias em Königsberg.



Ano de 1826



O último herege é queimado vivo, pela Inquisição espanhola. Uma rica tradição cristã termina. Daí para a frente, a Igreja recorrerá a meios mais sutis para matar, como proibir a assistência a mulheres que devem abortar, sabotando o planejamento familiar nos países pobres, proibindo os preservativos como modo de lutar contra a AIDS etc.



Ano de 1847



Guerra do Sonderbund. A Suíça é dilacerada por uma guerra religiosa. Os cantões católicos, cujos governos estão muito influenciados pelos conselheiros jesuítas, fundam uma aliança militar - o Sonderbund -, que exige a anexação aos cantões católicos de regiões majoritariamente protestantes. Chamam os monarcas católicos da Áustria em seu auxílio, depois iniciam as hostilidades. Somente uma vitória rápida das tropas federais/protestantes permitiu evitar uma intervenção austríaca, que levaria a um conflito de extensão européia.



Os protestantes, por seu lado, encetam uma feroz "caça aos católicos", nos campos de Genebra.



Os jesuítas, considerados responsáveis pela guerra, são expulsos da Suíça, e essa expulsão valerá até 1970.



Ano de 1848



A população de Roma revolta-se contra a ditadura papal. O papa é

expulso. Volta ao poder em 1849, devido à ação das tropas francesas enviadas por Luís Napoleão Bonaparte, presidente da república francesa. Os opositores são fuzilados. O Estado da Igreja volta a ser uma monarquia absoluta, cujo soberano é o papa.



Ano de 1871



O papa excomunga todo aquele que participar de qualquer eleição do Estado italiano, que é classificado como "diabólico", porque retirou aos papas o seu poder temporal. Essa sentença de excomunhão automática

não impedirá o papa de abençoar, alguns anos depois, a fundação do

"Partito Popolare", de inspiração católica e fundado por um padre.



Ano de 1881



Os "pogroms" russos começam. Incitados pelos prelados ortodoxos, que difundiram um boato que o czar Alexandre II teria sido assassinado por um judeu, multidões se juntam em mais de 200 cidades russas e destroem os bens dos judeus. Os "pogroms" tornar-se-ão comuns na piedosa Rússia czarista, sobretudo entre 1908 e 1917. O mais violento deles ocorreu em Kishinev, em 1913: as autoridades civis e religiosas da cidade incitam a multidão, que ataca violentamente os judeus. Durante dois

dias, a multidão mata 45 judeus, fere 600 e pilha 1500 casas. Claro que os responsáveis (popes e políticos) nunca serão incomodados pela justiça.



Ano de 1889



Em uma Roma livre do jugo papal, no dia 9 de junho, é inaugurada a

estátua de Giordano Bruno, no Campo das Flores. O Papa Leão XIII,

sofredor, passará o dia todo de jejum aos pés da estátua de São Pedro. A imprensa católica dispara: fala de "orgia satânica", descrevendo a manifestação da inauguração, o "triunfo da sinagoga, dos arquibandidos da Maçonaria, dos chefes do liberalismo demagógico", "o máximo da ignorância e da malignidade anticlerical".



Anos de 1918 a 1945



Os anos do compromisso. A Igreja Católica apóia ativamente o

crescimento dos totalitarismos na Europa. Na Áustria, o seu apoio ao austro-fascismo é total. Na Itália, ela assina com o regime fascista uma concordata que faz do catolicismo a religião do Estado: os italianos podem de novo votar sem serem excomungados. Pena que isso de pouco sirva em período de ditadura. A Igreja sacrifica em grande parte as suas próprias associações: todas, exceto a Ação Católica, devem integrar as organizações fascistas. O Vaticano promete a Mussolini fazer com que a AC não se deixe tentar por ações antifascistas.



Em 1929, Mussolini, depois de ter assinado a concordata dita "Patti Lateranensi", é qualificado pelo papa como "o homem da Providência". Em 1932, o ditador recebe, das mãos do papa, a Ordem da Espora de Ouro, que é a mais alta distinção concedida pelo Estado do Vaticano.



Essa bela harmonia vai resistir mesmo ao momento de tensão causado pela estátua de Giordano Bruno. O papa aproveita a concordata para pedir ao seu amigo ditador que destrua a estátua erigida em 1889. O ditador, que tem um filho com o nome de Bruno, toma a defesa do livre-pensador e declara à Câmara de Deputados: "A estátua de Giordano Bruno, melancólica como o destino desse monge, ficará onde ela está. Tenho a impressão que seria se encarniçar contra esse filósofo que, se equivocado, persistiu no erro, no entanto já pagou". Para mostrar que não se arrepende de nada, a Igreja canoniza então Roberto Bellarmino, o acusador de Giordano Bruno, nomeando-o "Doutor da Igreja".



Na Alemanha, em janeiro de 1933, o Zentrum, partido católico, cujo líder é um prelado católico (Pralat Kaas), vota plenos poderes para Hitler: este último pode assim atingir a maioria de dois terços necessária para suspender os direitos garantidos pela Constituição. Com uma caridade toda cristã, o bom prelado aceita também fechar os olhos para os discutíveis processos nazistas, como a prisão dos deputados comunistas antes da votação. Depois a Igreja começa a negociar uma nova concordata com a Alemanha: nesse cenário, ela sacrifica o Zentrum, então o único partido significativo que os nazistas não tinham proibido. Na realidade, ele tinha-o ajudado a chegar ao poder. Em 5 de julho de 1933, o Zentrum se dissolve sob solicitação da hierarquia católica, deixando o caminho livre para o NSDAP de Hitler, então partido único.



Hitler declara-se católico no "Mein Kampf", o livro onde ele anuncia o seu programa político. Também afirma que está convencido ser ele um "instrumento de Deus". A Igreja Católica nunca colocou no seu Index o "Mein Kampf", mesmo antes da ascensão de Hitler ao poder. Podemos acreditar que o programa anti-semita do futuro chanceler não desagradava à Igreja. Hitler mostrará o seu reconhecimento tornando obrigatória uma prece a Jesus nas escolas públicas alemãs, e reintroduzindo a frase "Gott mit uns" (Deus está conosco) nos uniformes do Exército alemão.



Em 1938, as SS e SA organizam a "Noite de Cristal": com trajes civis, os milicianos nazistas atacam sinagogas e lojas pertencentes a judeus. A população alemã está horrorizada e aterrorizada. O bispo de Freiburg, monsenhor Gröber, declara então, em resposta às perguntas sobre as leis racistas e os "pogroms" da Noite de Cristal: "Não podemos recusar a ninguém o direito de salvaguardar a pureza da sua raça e de elaborar medidas necessárias a esse fim".



Na Espanha, um general tenta um golpe de estado militar, que aborta mas degenera em guerra civil. A Igreja o apóia, padres e bispos benzem os canhões de Franco, celebram com muita pompa "Te Deum" pelas suas vitórias contra o governo republicano legítimo. A guerra faz mais de um milhão de mortos, e Franco fuzila todos os prisioneiros. Franco se mostrará reconhecido por seus piedosos aliados, nomeando diversos membros da Opus Dei para o seu governo. A influência da Opus Dei crescerá ao longo da ditadura franquista, ao ponto de se chegar a mais de metade dos ministros serem membros dessa venerável instituição católica.



Na França, a Igreja declara, desde 1940, que "Petain é a França": ela prefere de fato o Trabalho-Família-Pátria do Estado francês às Liberté-Égalité-Fraternité da República, que sempre a horrorizaram.



Durante a Segunda Guerra Mundial, o Vaticano estava ciente do

extermínio dos judeus pelos nazistas. Saber-se-á, após a guerra, que o papa diversas vezes esteve para fazer um pronunciamento público, mas que finalmente se absteve, essencialmente pela sua comunistofobia e achando que uma vitória russa seria "pior". No entanto, ele chorou em 1942, junto às ruínas de Roma, bombardeada pelos Aliados. Também ele se esquece de mencionar que o seu aliado político Mussolini tinha solicitado a Hitler para ter "a honra de participar dos bombardeamentos sobre Londres". É verdade que o papa não habitava em Londres...



Ano de 1948



O papa declara que todo aquele que votar nos comunistas ou que ajudar esse partido de qualquer maneira será automaticamente excomungado. Essa medida divide as famílias, provoca exclusões socialmente intoleráveis para muitos e obriga à clandestinidade de numerosos comunistas nas zonas rurais.



Os curas italianos apressaram-se a traduzir essa decisão em fatos, e pedem que as suas ovelhas votem no grande partido anticomunista (DC - Democrazia Cristiana). O partido DC vai-se afundar logo em seguida na corrupção generalizada nos anos 90.



Ano de 1961



Última edição do Index (Index Additus Librorum Prohibitorum), que

cita, como autores cujas obras são proibidas de leitura pelos

católicos, dentre outros: Jean-Paul Sartre, Alberto Moravia, André

Gide.



Anos 80



Depois de um período de aparente liberalização, o Papa João Paulo II

chega à cabeça da maior seita do mundo e rende-se às mais terríveis

tradições da Igreja.



A sua condenação do preservativo, como modo de luta contra a AIDS, provoca um grande número de mortos, difícil de estimar. Pratica uma política ativa de sabotagem às medidas de controle da natalidade no Terceiro Mundo. As consequências são difíceis de contabilizar, mas podem-se medir em termos de fome, miséria, criminalidade e falta de assistência médica nos continentes mais pobres - América do Sul e África. Na sua caça aos hereges, o papa suspende "A divinis", dois teólogos alemães que tinham ousado duvidar, um, da infalibilidade papal e, outro, da imaculada concepção de Maria.5



Anos 90: guerras de religião na Iugoslávia



A Iugoslávia era, nos anos 80, uma das terras favoritas para férias

balneares dos europeus. A publicidade iugoslava da época vendia o

caráter multi-religioso do país como um argumento turístico, pois se

podia ver, em Mostar e em outras belas cidades, as mesquitas e as

igrejas lado a lado. Mas o país se afundou em uma série de guerras civis que se querem descrever como guerras "étnicas", quando, na verdade, se trata de guerras religiosas. O caso da guerra da Croácia é o mais flagrante. Sérvios e croatas têm a mesma origem étnica e até a mesma língua, o croata-servo. O mais irônico é que o croata-servo (servo-croata, escrito em caracteres latinos) é hoje a língua oficial dos soldados do exército iugoslavo que combateu em Kosovo contra a

OTAN, depois de ter lutado contra os croatas no início dos anos 90. Mas a religião separa os croatas dos sérvios: os croatas foram cristianizados por Roma e são católicos. Os sérvios foram

cristianizados pelos bizantinos e são ortodoxos. Quando Milosevitch começa a agitar o espectro da "Grande Sérvia", a Croácia declara a independência. Imediatamente o Vaticano e a R. F. da Alemanha, cujo chanceler se declarava um católico convicto, reconhecem a Croácia católica como estado independente. O Vaticano mandou para todo o mundo

anúncios para que os países reconhecessem o novo Estado católico. O

papa multiplica os apelos, as preces e as missas pela independência da Croácia. Durante esse tempo, o ditador croata, antigo oficial superior do regime comunista e também católico praticante, deu férias para todos os seus funcionários ortodoxos, isto é, sérvios. Depois escolheu como bandeira nacional a antiga insígnia dos Oustachis, que, entre 1940 e 44, tinham praticado um genocídio de cerca de 600.000 sérvios.

A guerra civil iniciou-se.



Finalmente termina essa guerra, e o papa beatifica o cardeal Stepinac, que havia qualificado Ante Palevitc, o ditador Oustachi durante a ocupação de 1940/44, de "dom de Deus" para a Croácia e o havia apoiado

ativamente.



A guerra da Iugoslávia continuou depois na Bósnia, onde os membros dos três grupos religiosos (ortodoxos, muçulmanos e católicos) se enfrentaram em uma série de combates triangulares, tendo a população civil como a principal vítima. Depois a guerra passou para o Kosovo, província agrícola sem interesse estratégico, e todos sabemos o que se passou.



As guerras da Iugoslávia são um caso emblemático da catastrófica

intolerância que é típica das religiões "reveladas": as comunidades religiosas se enfrentam, neste final de século, em nome de religiões que elas receberam dos acasos da expansão dos diversos impérios(Romano, Bizantino e Otomano) desde a Idade Média.



Notas do Tradutor



1 - Que falta de conhecimentos sanitários!

2 - Para evitar problemas de herança, dos bens da Igreja.

3 - ...do Maranhão, é esse mesmo!

4 - Dominicanos e franciscanos dominavam a Inquisição.

5 - No Brasil também interditou e puniu diversos padres mais ousados,

como Leonardo Boff.





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