18/10/04 - 19h:13mDenunciar

GOTHIC CASTLE



Tristeza

Eu amo a noite com seu manto escuro

De tristes goivos coroada a fronte

Amo a neblina que pairando ondeia

Sobre o fastígio de elevado monte.



Amo nas plantas, que na tumba crescem,

De errante brisa o funeral cicio:

Porque minh’alma, como a sombra, é triste,

Porque meu seio é de ilusões vazio.



Amo a desoras sob um céu de chumbo,

No cemitério de sombria serra,

O fogo-fátuo que a tremer doideja

Das sepulturas na revolta terra.

Amo ao silêncio do ervaçal partido

De ave noturna o funerário pio,

Porque minh’alma, como a noite, é triste,

Porque meu seio é de ilusões vazio.



Amo do templo, nas soberbas naves,

De tristes salmos o troar profundo;

Amo a torrente que na rocha espuma

E vai do abismo repousar no fundo.



Amo a tormenta, o perpassar dos ventos,

A voz da morte no fatal parcel,

Porque minh’alma só traduz tristeza,

Porque meu seio se abrevou de fel.



Amo o corisco que deixando a nuvem

O cedro parte da montanha, erguido,

Amo do sino, que por morto soa,

O triste dobre na amplidão perdido.



Amo na vida de miséria e lodo,

Das desventuras o maldito seio,

Porque minh’alma se manchou de escárnios,

Porque meu seio se cobriu de gelo.



Amo o furor do vendaval que ruge,

Das asas negras sacudindo o estrago;

Amo as metralhas, o bulcão de fumo,

De corvo as tribos em sangrento lago.



Amo do nauta o doloroso grito

Em frágil prancha sobre mar de horrores,

Porque meu seio se tornou de pedra,

Porque minha’alma descorou de dores.



O céu de anil, a viração fagueira,

O lago azul que os passarinhos beijam,

A pobre choça do pastor no vale,

Chorosas flores que ao sertão vicejam,



A paz, o amor, a quietação e o riso

A meus olhares não têm mais encanto,

Porque minh’alma se despiu de crenças,

E do sarcasmo se embuçou no manto.



Fagundes Varella

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