07/05/06 - 19h:39mDenunciar

'BENZINHO

Todos os dias morre um amor. Quase nunca percebemos, mas todos os dias

morre um amor. Às vezes de forma lenta e gradativa, quase indolor,

após anos e anos de rotina. Às vezes melodramaticamente, como nas

piores novelas mexicanas, com direito a bate-bocas vexaminosos,

capazes de acordar o mais surdo dos vizinhos. Morre em uma cama de

motel ou em frente à televisão de domingo. Morre sem beijo antes de

dormir, sem mãos dadas, sem olhares compreensivos, com gosto de

lágrima nos lábios.

Morre depois de telefonemas cada vez mais espaçados, cartas cada vez

mais concisas, beijos que esfriam aos poucos. Morre da mais completa e

letal inanição.

Todos os dias morre um amor. Às vezes com uma explosão, quase sempre

com um suspiro. Todos os dias morre um amor, embora nós, românticos

mais na teoria que na prática, relutemos em admitir. Porque nada é

mais dolorido do que a constatação de um fracasso. De saber que, mais

uma vez, um amor morreu. Porque, por mais que não queiramos aprender,

a vida sempre nos ensina alguma coisa. E esta é a lição: amores

morrem.

Todos os dias um amor é assassinado. Com a adaga do tédio, a cicuta da

indiferença, a forca do escárnio, a metralhadora da traição. A sacola

de presentes devolvidos, os ponteiros tiquetaqueando no relógio, o

silêncio insuportável depois de uma discussão: todo crime deixa

evidências.

Todos nós fomos assassinos um dia. Há aqueles que, como o Lee Harvey

Oswald, se refugiam em salas de cinema vazias. Ou preferem se esconder

debaixo da cama, ao lado do bicho papão. Outros confessam sua culpa em

altos brados e fazem de pinico os ouvidos de infelizes garçons. Há

aqueles que negam, veementemente, participação no crime e buscam por

novas vítimas em salas de chat ou pistas de danceteria, sem dor ou

remorso. Os mais periculosos aproveitam sua experiência de criminosos

para escrever livros de auto-ajuda, com nomes paradoxais como "O Amor

Inteligente" ou romances açucarados de banca de jornal, do tipo "A

Paixão Tem Olhos Azuis", difundindo ao mundo ilusões fatais aos

corações sem cicatrizes.

Existem os amores que clamam por um tiro de misericórdia: corcéis feridos.

Existem os amores-zumbis, aqueles que se recusam a admitir que

morreram. São capazes de perdurar anos, mortos-vivos sobre a Terra

teimando em resistir à base de camas separadas, beijos burocráticos,

sexo sem tesão. Estes não querem ser sacrificados e, à semelhança dos

zumbis hollywoodianos, também se alimentam de cérebros humanos e

definharão até se tornarem laranjas chupadas.

Existem os amores-vegetais, aqueles que vivem em permanente estado de

letargia, comuns principalmente entre os amantes platônicos que

recordarão até o fim de seus dias o sorriso daquela ruivinha da 4a.

série ou entre fãs que até hoje suspiram em frente a um pôster do

Elvis Presley (e pior, da fase havaiana). Mas titubeio em dizer que

isso possa ser classificado como amor (Bah, isso não é amor. Amor

vivido só do pescoço pra cima não é amor).

Existem, por fim, os AMORES-FÊNIX. Aqueles que, apesar da luta diária

pela sobrevivência, dos preconceitos da sociedade, das contas a pagar,

da paixão que escasseia com o decorrer dos anos, da mesa-redonda no

final de domingo, das calcinhas penduradas no chuveiro, das toalhas

molhadas sobre a cama e das brigas que não levam a nada, ressuscitam

das cinzas a cada fim de dia e perduram: teimosos, belos, cegos e

intensos. Mas estes são raríssimos e há quem duvide de sua existência.

Alguns os chamam de amores-unicórnio, porque são de uma beleza tão

pura e rara que jamais poderiam ter existido, a não ser como lendas. PARA SEMPRE!!

Comentários (1)

tiaisis
1. tiaisis 7/05/06 19:32

E COMPLETANDO TEM UNS AMORES QUE SIMPLESMENTE DESISTEM DE AMAR.

Fotos postadas a mais de 15 dias não podem receber comentários.